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A chegada dos portugueses no Canadá

por John Soares, em 08.11.20

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Desde a Segunda Guerra Mundial, o Canadá passou por consideráveis modificações no que se refere à composição étnica e racial da população e, hoje em dia, é um país conhecido por sua sociedade culturalmente heterogênea. Um dos grupos de imigração relativamente recente que contribuiu para essa diversidade cultural foram os portugueses. Calcula-se que existam no Canadá cerca de 550 mil portugueses e lusodescendentes, estando a grande maioria localizada na província do Ontário (Gomes, 2001). 

Com o passar dos anos, os portugueses foram construindo seu espaço no país. Prova disso é a manifestação do  Real Canadian Portuguese Historical Museum em Toronto, que pretende reconhecer a presença portuguesa na América do Norte alguns anos antes da chegada de Cristovão Colombo ao continente. Em entrevista ao jornal português Ípsilon, Suzy Soares, presidente do museu de história (RCPHM), afirmou que “sempre houve vestígios de que o navegador português João Vaz Corte-Real esteve no Canadá em 1422, dezenove anos antes da chegada de Cristovão Colombo à América do Norte”. 

Para os historiadores canadense e português, Henry Vivian Nelles (1830 - 1930) e Joaquim Veríssimo Serrão (1925), mais ou menos em 1.500 foi o ano em que Gaspar Corte-Real teria se aventurado nas terras setentrionais, cujas águas próximas já eram frequentadas por pescadores portugueses em busca de bacalhau. Os autores afirmam que, até mesmo antes disso, teriam estado na região da atual “Terra Nova”os navegadores Diogo de Teive, João Vaz Corte-Real (irmão de Gaspar) e João Fernandes Lavrador - que contribuiu com a geografia canadiana, pois a denominação da região e mar do Labrador no Canadá é em homenagem ao navegador português, que em 1498, juntamente com Pedro Barcelos, explorou aquela região (Pedra, 2017). 

Porém, há controvérsias. Alguns historiadores canadenses possuem dúvidas de que o antigo capitão-donatário tenha estado onde se localiza atualmente o Canadá antes de 1492. Entretanto, em Portugal, para a maioria dos estudiosos, João Vaz Corte-Real realmente passou pela região antes de Colombo. (Ípsilon, 2016). 

Após a chegada no país, os portugueses ocuparam as regiões rurais e tiveram de enfrentar o trabalho duro, empregando suas atividades com especial incidência na construção. Foi da mão do povo português que saíram obras como a CN Tower e o Skydome. (Gomes, 2001). 

 

 

Comércio 

 

De acordo com o historiador português Joaquim Veríssimo Serrão (1925), Mathieu da Costa, de pai português e mãe africana, foi o primeiro afrodescendente de que há registo no Canadá, em 1.600. O português Pedro da Silva foi o primeiro carteiro no Canadá, no ano de 1673. Joe Silvey, em 1853, foi um pioneiro na colonização da costa oeste do Canadá. Nas últimas décadas, os portugueses atingiram um nível de organização comunitária notável, desenvolvendo sua própria língua no país, serviços de comunicação e informação, negócios e serviços comerciais. 

Bento de São José, de 80 anos, ex-militar, desembarcou no Canadá aos 23 anos, em 17 de março de 1963, dia de St. Patrick. Ele conta que havia acabado de chegar da África de uma missão, voltou a Portugal, casou-se e saiu em busca de abrir negócios no Canadá. “ Meus irmãos já moravam aqui e sempre me incentivaram a vir. Eu já vim com a cabeça feita, pensando em abrir uma fábrica de madeira e possuir outros negócios”, explica. 

Porém, quando chegou, antes de iniciar com a vida de negócios, Bento fez de tudo um pouco. Trabalhou como instrutor de direção, trabalhou na Corte como tradutor, ajudou a construir casas e trabalhou até mesmo na agricultura. 

“Quando cheguei não havia muitos portugueses no país, não havia a comunidade portuguesa. Foi tudo mais dificultoso para manter os negócios, principalmente porque fiz tudo sozinho”, conta. 

Com força, fé e perseverança, como Bento mesmo gosta de destacar, em 1969 abriu seu negócio, a Bentos Auto Service Centre, que no início era apenas de bombas de gasolina. Com o tempo, a empresa foi crescendo, mudou para Dundas St. West e está prestes a completar 50 anos desde a sua abertura. Todos os dias, faça chuva ou faça sol, até aos fins de semana, o ex-militar faz questão de ir trabalhar. “Para mim, parar é morrer. Temos sempre que olhar para frente e avançar”, diz. 

Apesar das dificuldades que enfrentou inicialmente, Bento diz se sentir acolhido pelo país. Cheio de orgulho, enche a boca para dizer que  língua portuguesa é a quinta mais importante do mundo. “Temos que defender o nome do país que a gente veio”, enfatiza. 

Em seu local de trabalho, faz questão de fazer reuniões periódicas com membros da comunidade portuguesa para debaterem sobre novas leis, seus direitos e deveres como cidadãos canadenses e verificar se algum membro está passando por alguma dificuldade. 

Desde que chegaram ao país, a família São José fez história e ajudou a construir o espaço que hoje é denominado Little Portugal. O irmão mais velho de Bentos foi o primeiro contabilista e auditor português do Canadá. Bento foi o primeiro português a abrir as portas da política para os lusos, sendo que, na época, não tinham nem direito a votar. Concorrendo a membro do governo provincial, batendo de porta em porta, escola em escola, igreja e igreja, Bento criou o programa que facilitou a entrada dos lusos para concorrer a cargos públicos e, em 1985, os portugueses foram realmente considerados cidadãos canadenses ganhando o direito ao voto. 

 

Little Portugal é um bairro com predominância residencial, com maior grupo étnico de portugueses e maioria de lojas portuguesas, que situam-se ao longo das ruas College e Dundas, dando o nome à área. Há um bom número de casas desde meados do século XX. 

 

No ano de 1990, o ex-militar organizou uma manifestação com 13 mil pessoas no Queen’s Park para pedir ao estado canadense a aceitação dos imigrantes ilegais. Fato que, até hoje, é um problema para a comunidade portuguesa. 

“O melhor presente que o governo poderia nos dar é o presente da Páscoa. Dar amparo aos cidadãos que se encontram ilegais no país. Para os adultos, para os jovens e para as crianças”, finaliza. 

Na atualidade, há luso-canadianos espalhados em todos os ramos de atividades. Alguns até conquistaram cargos políticos, como é o caso de Ana Bailão, portuguesa que ganhou pela terceira vez como vereadora em Toronto, com 83,6% dos votos..Encontra-se, também, centenas de advogados, médicos, além de professores universitários, funcionários governamentais locais e funcionários de repartições públicas. Quanto às atividades econômicas, o número de profissionais portugueses ainda é pequeno. A grande maioria dos portugueses trabalha na construção, no ramo de hotelaria, manufatura e em cargos públicos. (Gomes, 2001).

 

 

Portugal Day 

 

Neste ano de 2019, no mês de junho, comemora-se no Canadá, na Little Portugal, a 32ª Portugal Day Parade. Todos os anos, membros da comunidade portuguesa vão às ruas com bandeiras e roupas típicas para homenagear seu país de origem. Na última edição do evento, Julie Dzerowicz,  Liberal do MPD, afirmou que pela primeira vez a nível nacional, o Canadá dedicou o mês de junho como o mês da Herança Portuguesa e o 10 de Junho como o Dia de Portugal. 

Este evento, sem dúvida, mostra que a união lusitana é algo para se orgulhar, pois, os mais de meio milhão de portugueses, seja por nascimento, seja por descendência, todos os dias, ajudam a construir novas histórias, sem deixar suas origens. A nação canadense é diversificada e o povo português só tem agregado nessa enorme colcha de retalhos linguística e cultural que é o Canadá. 

 

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publicado às 17:52

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O arquipélago dos Açores tem 9 ilhas. Três delas são tão próximas uma da outra, que, de qualquer uma, vê-se as outras duas. São elas as ilhas do Pico, Faial, e São Jorge.

A Ilha do Pico é famosa por ter a montanha mais alta de Portugal e vinhedos no meio das rochas.

Já a Ilha do Faial “aumentou” na década de 1950 por conta da explosão de um vulcão no mar. As cinzas e pedras lançadas na erupção criaram uma nova extensão de terra.

 

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Na Ilha de São Jorge fica a maior caverna (algar) dos Açores, que pode ser visitada em vários tipos de passeio, com opções que agradam desde o mais jovem aventureiro até a famíla mais tranquila.

Faial

Com 15 mil habitantes, o Faial é a terceira ilha mais populosa dos Açores.

Na capital, Horta, fica a marina mais movimentada do arquipelágo. Ela é uma das paradas preferidas de quem cruza o Atlântico Norte.

 

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Horta é o melhor lugar para se hospedar no Faial, ja que é onde fica o porto que a conecta às outras ilhas. O acesso ao aeroporto tambem é fácil.

E, de lá, a gente enxerga o tempo todo o Pico, ponto mais alto de Portugal, que fica na ilha vizinha.

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No outro extremo do Faial, a 22 km de distância, fica Capelinhos, uma extensão de terra que surgiu em 1957, com a explosão de um vulcão.

 

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Tudo começou com uma turbulência no mar, no lado oeste da ilha.

Os pescadores da vila próxima inicialmente acharam que eram baleias. Mas não. A turbulência estava sendo provocadas pela explosões decorrentes do encontro da lava com a água do mar.

Em seguida começou a emissão de jatos de cinzas negras, acompanhados por uma grande coluna de vapor d’água e gases vulcânicos.

Era o começo de uma erupção que duraria 13 meses.

Em poucos dias surgiu uma primeira montanha, a poucos metros da ilha e do farol. Ela sumiu e foi substituída por uma segunda, que também sumiu. A terceira permanceu e, com a continuação da erupção, acabou ligando-se à ilha.

O antigo farol foi coberto pelas cinzas e teve que ser abandonado. A gente pode subir lá em cima e impressionar-se com a vista.

 

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A antiga vila de pescadores também foi abandonada e coberta pelas cinzas e pedras. Aos poucos o vento está removendo a areia, e telhados ja podem ser vistos em alguns locais.

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Lá a gente entende o fenômeno geológico e, também, o impacto que a erupção teve na vida da população – metade dos habitantes do Faial emigraram para os Estados Unidos e o Canadá nessa época.

Esse artigo da National Geographic conta essa história toda com mais detalhes e com depoimentos de quem viu a explosão.

Na volta de Capelinhos para Horta paramos na Caldeira, o vulcão que deu origem à ilha.

 

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Quem gosta de trilhas pode circular o vulcão a pé. A volta na Caldeira tem apenas 6,9 quilômetros e pode ser feita tranquilamente em menos de duas horas.

 

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Os mais aventureiros podem escolher outra trilha. A mais desafiadora da ilha é chamada de Dez Vulcões, tem quase vinte quilômetros e a duração média para completar o percurso é de cinco horas.

 

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Nós não alugamos carro no Faial. Usamos táxi e saiu bem mais barato. Essa é a tabela de preço oficial dos táxis em julho de 2019.

 

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A localização é ótima, com vista privilegiada para a Ilha do Pico, e o hotel tem uma estrutura de piscinas que aproveitamos bastante.

Quem prefere banho de mar pode ir caminhando até a praia do Porto Pim.

 

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Ilha do Pico

 

Quem visita essa ilha, normalmente está interessado em escalar o Pico, a montanha mais alta de Portugal, com 2.351 metros de altitude.

A escalada, que deve ser feita com acompanhamento de guia, leva um dia inteiro. Em média são 3h30 para subir e mais 3h30 para descer.

Eu confesso que estava mais interessado em conhecer a Paisagem da Cultura da Vinha e do Vinho, considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

 

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A gente já pode ter uma idéia dela quando chega na ilha de avião. 

Esses muros de pedra, chamados de “currais”, foram construidos para possibilitar o cultivo da vinha.

Foi a única cultura que os primeiros habitantes, que chegaram no século XVII, conseguiram desenvolver no solo vulcânico.

 

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Os muros de pedras vulcânicas protegem as uvas do vento que vem do mar. A área onde ficam os currais é chamada de lajido.

O contraste do azul do mar e do céu com o verde das vinhas e o preto das pedras é lindo! A vinha cresce no chão. Tá vendo os cachinhos de uva escondidos aqui?

 

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O contraste fica ainda mais lindo com o vermelho das janelas e portas das casas e do moinhos que se espalham pela região.

 

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São dois lajidos no Pico, um à esquerda e outro à direita da vila de Madalena, onde nos hospedamos.

Esse das foto é o lajido de Criação Velha. O outro é o lajido de Santa Luzia, onde há um pequeno Centro de Interpretação que fala sobre os vinhos produzidos na região.

Perto do Lajido da Criação Velha fica uma das muitas piscinas naturais da ilha. Essa foi minha preferida. Além das tradicionais pedras, tem um espaço com areia e um bar.


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Um dos pontos altos da viagem foi um fim de tarde no Cella Bar, com arquitetura inspirada em um barril de vinho.

 

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Do terraço a gente tem uma vista deslumbrante para o mar e a ilha do Faial. Acompanhada de vinho e queijo local fica melhor ainda.

Os três queijos. O São João é um queijo macio, que lembra o queijo brie. Mas os meus preferidos foram o Alfredo e o Leal, mais firmes e bastante salgados.

 

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Outro aspecto interessante da ilha do Pico é essa piscina, que fica em Madalena. Além da vista, sempre deslumbrante, o acesso a piscina é livre.

A piscina, que é pública, fica do ladinho de uma piscina natural, entre as pedras. No verão, durante o dia, tem salva-vidas protegendo quem se diverte no local.

 

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De noite ela também fica aberta. Nada mal um banho de piscina grátis com esse pôr do sol…

 

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De vila de Madalena, de lá saem barcos diários para Faial e aviões regulares para Lisboa. Também é o local com melhor estrutura turística e onde concentra-se a maioria dos restaurantes e bares.

Em Madalena, uma opção de hospedagem interessante é o Jeirões do Mar, um condomínio de casas próximo à piscina pública e a 500 metros da igreja central da vila.

As outras localidades importantes da ilha são Lajes do Pico e São Roque. 

De Lajes do Pico saem os passeios de barco para quem quer observar baleias. 

De São Roque é fácil pegar um barco para São Jorge, a terceira ilha do Triângulo.

Pertinho de São Roque fica a Prainha, que tem esse nome por ser o único local do Pico onde se forma naturalmente uma praia de areia – mas só no verão.

Nós alugamos um carro para passear por essa ilha e valeu muito a pena. Recomendo.

 

São Jorge

 

Não foi dessa vez que conhecemos a ilha que produz os queijos mais famosos do arquipelágo.

O Queijo de São Jorge é um dos 5 produtos de origem de denominação protegida dos Açores. Os outros são o ananás e o maracujá de São Miguel, o queijo do Pico,  e o mel dos Açores.

A principal atração turística de São Jorge é a possibilidade de explorar cavernas, já que lá fica a maior dos Açores. 

O jeito mais fácil para chegar em São Jorge, que tem portos nas vilas de Calheta e Velas, é pegando um barco de qualquer uma das outras quatro ilhas do Grupo Central (Faial, Pico, Graciosa e Terceira). Também há vôos de São Jorge para as ilhas Terceira e São Miguel.

Chegar nas duas ilhas que fui, Faial e Pico, é mais fácil. Além dos barcos e vôos regionais, as duas ilhas tem vôo direto para Lisboa.

 

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publicado às 19:27


Comida típica dos Açores: Cozido das Furnas

por John Soares, em 07.11.20

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Essa é imperdível para quem vai a São Miguel, a maior ilha do arquipélago. O Cozido das Furnas tem uma forma de preparo única. Ele é feito sob a terra, com panelas enormes sendo enterradas na área aquecida pelo vulcão.

Para ver toda a função é só ir até a Lagoa das Furnas. Lá tem um campo de fumarolas, que são aberturas na crosta terrestre, de onde saem vapor de água e gases.

 

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Nesse campo, foi criada uma “zona de cozidos”, cheia de buracos como esse.

 

 

Alguns dos buracos são reservados para os restaurantes que servem o prato. Outros podem ser utilizados por qualquer um que chegar lá.

As panelas com os ingredientes ficam enterradas de 6 a 8 horas. Quem chega na lagoa entre 12h e 15h, com certeza verá alguma das panelas sendo retirada da terra quente.

 

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O cozido é então levado para os restaurantes que servem o prato. São vários. O mais tradicional é o Tony’s. O restaurante do Hotel Terra Nostra também serve um cozido bem famoso.

A principal diferença é que o primeiro é um restaurante bem simples e o outro fica em um hotel de luxo. Isso resulta em diferenças na variedade dos ingredientes e na maneira em que o prato é servido. Em termos de sabor, eles são muito parecidos.

Provamos os dois. Para uma experiência mais autêntica, sugiro o do Tony’s. Afinal, estamos falando de um prato tradicional, simples, preparado pelos habitantes da região para consumo próprio há muito tempo.

 

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Para um almoço mais gourmet, o do hotel é melhor.

A variedade de ingredientes é maior, o prato vem acompanhado por uma jarra de caldo do cozido e, ao invés de chegar na mesa em uma travessa servida, o garçom coloca ingrediente por ingrediente no prato, enquanto explica o que cada um é.

É mais caro, mas compensa para quem gosta desse tipo de experiência.

Entre as outras opções de restaurante, o Caldeiras e Vulcões chamou a minha atenção. Oferece, além do cozido, outros pratos preparados nas fumarolas, incluindo feijoada.

Para os mais valentes, esse post do blog Viajar entre Viagens ensina como você pode fazer seu próprio cozido nas fumarolas do vulcão.

O chã das caldeiras

Aproveitando que já estamos em Furnas: no centro da freguesia fica uma área conhecida como Chã das Caldeiras. É uma praça, onde há várias fumarolas e, também, várias nascentes de águas minerais.

Essa é uma das maiores fumarolas, conhecida como Caldeira do Asmodeu. A água sai da terra com temperatura de 98,8º C.

 

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São várias dessas no parque. O enxofre deixa as pedras amareladas e solta um cheiro forte, que se esparrama por toda a região.

Tem também muitas fontes de águas minerais na Chã das Caldeiras. A mais famosa é a da Água Azeda. A gente provou. É esquisita… mas dizem que faz desaparecer caspa e que ajuda na digestão.

 

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publicado às 16:05


OS MUROS

por John Soares, em 06.11.20

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“Precisamos de pontes, não de muros”, disse o papa Francisco, numa celebração dominical que evocava os 25 anos da queda do Muro de Berlim.

Esta alusão a muros e pontes é recorrente e tem variáveis em torno da mesma ideia: escolhemos insistentemente a divisão em vez da união.

Muros são personagens históricos quase vívidos, impondo-se firmes e verticalmente como opressores, separando aquilo que não se quer unido, dividindo aquilo que não se quer somado.

Muros remontam a nosso berçário civilizacional, quando grupos antigos montavam obstáculos físicos para deter inimigos e garantir seus domínios.

As cidades antigas eram muradas e também passaram a ser murados alguns limites mais amplos, demarcando mundos distintos de humanos distintos.

Entre os anos 122 e 126 o imperador romano Adriano mandou erigir o Vallum Aelium, que passou a ser reconhecido com naturalidade como a Muralha de Adriano e tinha propósito defensivo militar estratégico, mas também deixava clara a ideia de que do lado de lá da estrutura estava uma outra natureza de homens, os bárbaros, as tribos animalescas que não eram assemelhadas ao esplendor de Roma.

Séculos e muros depois, na Alemanha (ou nas Alemanhas) o Muro de Berlim traçava os limites entre modelos sociais e projetos políticos que se afirmavam como opostos.

Este muro durou relativamente pouco, mas os simbolismos em torno dele são presentes e serão duradouros e por isso mesmo referenciam outras muralhas demarcatórias e divisionistas.

O Muro de Israel construído sobre a Palestina e sobre os palestinos é outra obra de nossa engenharia da truculência e está ainda em expansão, traçando uma abusiva fronteira tridimensional de concreto em terras tomadas dos palestinos por meio dos assentamentos israelenses irregulares que são fincados diante do silêncio omisso (ou conivente e até parceiro) do Ocidente.

Como a divisão é uma vocação que os poderosos exercem como uma missão, o novo muro em evidência é o ianque, que foi elevado a uma condição de obsessão pelo presidente Trump.

O presidente de franja quer que os mexicanos paguem pelo muro que é seu projeto populista de ludibriar os ianques, imputando aos estrangeiros pobres que cruzam a fronteira as mazelas que não foram produzidas por eles.

Mister Trump condena os mexicanos pelo narcotráfico que “invade” os EUA, mas não se atém ao fato de que seus compatriotas são os maiores consumidores de drogas do mundo e o maior mercado do mundo gera oferta.

O capitalismo que Trump segue como religião funciona assim: se há demanda abundante a oferta buscará satisfazer o mercado, logo, com muro ou sem mexicanos não faltarão depois fornecedores e estrangeiros a quem culpar pelo pecado pátrio.

O Muro de Trump é um projeto velho. É resultado de uma perspectiva antiga que também rotula e estabelece uma divisão fundada em poder e presunção.

Os bárbaros ao sul do muro são os mexicanos do México e os mexicanos genéricos até a Patagônia. Somos esses mexicanos também, embora muitos de nós não tenham percebido.

Que o Muro de Trump nos sirva como lição sobre o que queremos para a América Latina, pois ou o concreto nos subjuga ou nos faz entender que precisamos de um novo rumo para os americanos ao sul do Rio Bravo, um rumo nosso, integrado e próspero porque esta América Latina de veias abertas sobre a qual escreveu o uruguaio Eduardo Galeano precisa gerar riqueza também para os seus filhos.

O general nacionalista mexicano Porfírio Díaz governou seu país em duas oportunidades e proferiu uma sábia verdade sobre a situação de sua terra: “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos EUA”.

Que o lamento de Díaz deixe de ser uma dolorida constatação para os mexicanos do México e para os demais mexicanos dos outros Méxicos da América Latina. E que nossas elites não tenham a cabeça, o coração e os interesses do outro lado do muro.

 

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publicado às 23:10




O Forte de São Brás, oficialmente Prédio Militar nº 001/Ponta Delgada, também referido como Castelo de São Brás, localiza-se na freguesia de São José, na cidade e concelho de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, nos Açores.

O estudo para a defesa das ilhas do arquipélago dos Açores, contra os assaltos de piratas e corsários, atraídos pelas riquezas das embarcações que aí aportavam, oriundas da África, da Índia e do Brasil, iniciou-se em meados do século XVI. Bartolomeu Ferraz, em uma recomendação para a fortificação dos Açores apresentada a João III de Portugal em 1543, chama a atenção para a importância estratégica do arquipélago:


"E porque as ilhas Terceiras inportão muito assy polo que per ssy valem, como por serem o valhacouto e soccorro mui principal das naaos da India e os francesses sserem tão dessarrazoados que justo rei injusto tomão tudo o que podem, principalmente aquilo com que lhes parece que emfraquecem seus imigos, (...)."

Ainda sob o reinado de D. João III (1521-1557) e, posteriormente, sob o de Sebastião I de Portugal (1568-1578), foram expedidos novos Regimentos, reformulando o sistema defensivo da região, tendo se destacado a visita do arquiteto militar italiano Tommaso Benedetto ao arquipélago, em 1567, para orientar a sua fortificação. Como Ferraz anteriormente, este profissional compreendeu que, vindo o inimigo forçosamente pelo mar, a defesa deveria concentrar-se nos portos e ancoradouros, guarnecidos pelas populações locais sob a responsabilidade dos respectivos concelhos.

Nesse contexto, a construção deste forte deveu-se a uma série de pedidos dos ilhéus a D. João III (1521-1557), insistindo na necessidade de fortificar a ilha. Entre estes, o ouvidor da ilha, Manuel 


Nunes Ribeiro expõs ao soberano:

"Creia V.A. que é muito necessário fazer-se logo a dita fortaleza e mandar alguma artilharia para a defenção dos navios que surtem no porto, porque depois que se escreveu a V.A. vieram aqui, por duas ou três vezes, naus francesas e tomaram alguns navios em que tomaram um com cento e vinte e sete pessoas, em que estavam nove mulheres, do qual navio não há nenhuma nova e há mais de dez meses que o tomaram e por muito certo se afirma que todas as vezes que aqui vierem poderão roubar navios que no porto estiverem sem lhes poderem valer por falta de artilharia e fortaleza que não há, a qual agora é mais necessária por causa do grande crescimento que vai a ilha com os açúcares que agora se plantam." (Carta do Ouvidor da Ilha de São Miguel, Manuel Nunes Ribeiro, ao rei, c. 1550)

O primeiro projeto para a sua construção foi de autoria do "Mestre das obras das capelas" dos Açores, Manuel Machado (CARITA, 1989:197) que, a construir o molhe do porto de Ponta Delgada, apresentou um esboço em 1551, criticado no ano seguinte (1552) pelo matemático e arquiteto militar Isidoro de Almeida. Este, por sua vez, apresentou nova traça, profundamente alterada, já em 1553. Nesse ano, para as suas obras foi lançado um imposto de 2% sobre o pastel e o açúcar, além de outras contribuições da população, tendo a obra orçado os 36.672$542 cruzados. Nesse mesmo ano foi criada ainda a Confraria de Bombardeiros para guarnecê-lo, que chegou a São Miguel em 25 de Maio de 1554, integrada por nove bombardeiros sob o comando do Condestável Lourenço Baldaíque, trazendo artilharia, pólvora e munição. Posteriormente esses homens retornaram ao reino, permanecendo apenas o Condestável, para instrução a trinta micaelenses, alistados.


O primeiro Alcaide-mor do Castelo foi D. Manuel da Câmara, 6º capitão do donatário, entre 1552 e 1554, e o seu primeiro Sargento-mor, João Fernandes Grado.

 

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publicado às 19:53


Parque Terra Nostra, S. Miguel, Açores

por John Soares, em 06.11.20


O Parque Terra Nostra é um jardim botânico português localizado no Vale das Furnas, concelho da Povoação, ilha de São Miguel, arquipélago dos Açores. Este parque encerra uma das maiores colecções do mundo de camélias, tendo mais de 600 genros diferente e também a maior colecção da Europa de Cicas.




A fundação deste jardim botânico recua a 1780, quando o então Cônsul dos Estados Unidos na ilha de São Miguel, Thomas Hickling, mandou construir neste espaço a sua residência de Verão, então conhecida como Yankee Hall.

Foi no entanto em meados do século XIX que o jardim propriamente dito teve uma grande desenvolvimento, da área ocupada de dois hectares, por iniciativa dos seus sucessivos proprietários, fossem os Viscondes da Praia ou mais tarde a família Bensaude, aumentou gradualmente até ter uma dimensões bastante confortáveis.

Corria o ano de 1848 e depois de comprado pelo 1.º Visconde da Praia, Duarte Borges da Câmara e Medeiros, este parque veio a sentir o seu primeiro e grande aumento, neste altura foi feita a criação dos jardins de água e à plantação de alamedas sombrias e de canteiros de flores, bem como à substituição do Yankee Hall pela actual Casa do Parque, que neste momento se encontra dedicada à hotelaria.


Foi em 1872, e já nas mãos do 2.º Visconde da Praia, António Borges de Medeiros Dias da Câmara e Sousa, que se deu o ordenamento do jardim, tendo-se nesta altura recorrido a especialistas, tanto portugueses como ingleses. Estes especialistas procederam à reconstrução do actual canal serpentiforme, das grutas, das avenidas de buxo, e, ainda, dos caminhos ladeados de laranjeiras, já desaparecidas.

Foi também sob o comando do 2º. Visconde que se procedeu ao plantio de parte significativa das árvores mais emblemáticas, que dominam as diversas áreas do Parque e que foram importadas, vindo algumas de zonas tão distantes e díspares como a América do Norte, a Austrália, a Nova Zelândia, a China e a África do Sul.

Decorriam os anos 30 do século XX, o Parque Terra Nostra, foi adquirido por Vasco Bensaúde, que viu neste parque um complemento ao recentemente inaugurado Hotel Terra Nostra. Nesta altura é de novo ampliado, alcançando a área de 12,5, divididos por jardins e matas.


Foi Vasco Bensaude, pessoa possuidora de grandes conhecimentos em botânica e jardinagem, que manda então fazer a recuperação do Parque. Para isso dá a direcção do mesmo ao seu jardineiro de origem escocesa, John McEnroy.

Nesta altura são feitas obras de manutenção na Casa do Parque e na piscina de água férrea e natural, de cor castanha e cuja temperatura ronda os 25 graus, sendo a piscina forrada a pedra de cantaria e introduzidas novas plantas exóticas de forma a aumentar o número de espécies existentes.

Este parque, considerado um dos mais bonitos do mundo pela revista Condé Nast Travel das Condé Nast Publications, está aberto todos os dias da semana entre as 10:00 e as 19:00.

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publicado às 19:32


Região Autónoma dos Açores

por John Soares, em 06.11.20

 
Após o 25 de Novembro de 1975, acção militar que pôs fim à influência da esquerda militar radical no período revolucionário (PREC) iniciado após a revolução do 25 de Abril de 1974. A Constituição da República Portuguesa (CRP) de 1976, aprovada a 2 de Abril, concedeu aos Açores o estatuto de Região Autónoma, dotada de personalidade jurídica de direito público. São extintos formalmente os distritos administrativos de Ponta Delgada, de Angra do Heroísmo e da Horta.
 
 
A autonomia política administrativa se fundamenta nas suas características geográficas, económicas, sociais, culturais e nas históricas aspirações autonomistas dos açorianos. Não afecta a integridade da soberania do Estado - que é um Estado Unitário - e se exerce no quadro da Constituição da República Portuguesa. Do ponto de vista histórico e cultural, foi a Diocese de Angra que ajudou a traçar o conceito de unidade açoriana até aos nossos dias. A alternância política na Região entre o socialismo (PS) e a social-democracia (PSD) marcam os 35 anos do regime democrático. Nas eleições legislativas regionais, os votos de protesto em partidos minoritários e o aumento da abstenção eleitoral, assinala um preocupante afastamento dos eleitores das lideranças políticas partidárias. O único partido político português com sede na região, o Partido Democrático do Atlântico (PDA), tem uma fraca expressão.
 
 
Junta Regional dos Açores foi o órgão governativo transitório criado pelo Dec. Lei 458-B/75, de 20 de Agosto, para substituir os governos civis nos ex-Distritos e as respectivas Juntas-gerais. Dissolvidos com a tomada de posse do I Governo Regional dos Açores a 9 de Setembro de 1976, transitou para este todas as competências, bens e responsabilidades que lhe estavam afectos. Com o objectivo de fomentar o desenvolvimento económico, social e cultural dos Açores, criou-se a RTP Açores, em 10 de Agosto de 1975, e fundou-se a Universidade dos Açores (UAç), a 8 de Janeiro de 1976. A governação da RAA está regulada pelo Estatuto Político Administrativo dos Açores. Possui como órgãos de governo próprio: a Assembleia Legislativa Regional (ALRAA), com sede na cidade da Horta, e a Presidência do Governo Regional, têm sede na cidade de Ponta Delgada. As respectivas secretarias e direcções regionais, encontram-se distribuídas pelas suas principais cidades - Ponta Delgada (4), Angra do Heroísmo (2) e Horta (1). Não existe uma cidade capital dos Açores, embora Ponta Delgada seja a principal cidade. Actualmente, compreende 19 municípios e 154 freguesias. Os limites administrativos dos Açores não sofreram quaisquer alterações.
 
 
Das 154 freguesias açorianas, cerca de metade podem desaparecer caso seja concretizada na RAA a reforma proposta pelo Governo da República. Essa extinção «iria poupar ao Estado apenas 700 mil euros por ano», frisou Sérgio Ávila, Vice-presidente do Governo Regional. O Estado Português é representado na RAA por um Representante da República, nomeado e exonerado pelo Presidente de Portugal, sob proposta do Governo da República, e após ouvir o Conselho de Estado. Têm residência oficial na cidade de Angra do Heroísmo. Em caso de vagatura do cargo, bem como nas suas ausências e impedimentos, é substituído pelo(a) Presidente da ALRAA.
 

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publicado às 19:10


História da Ilha de Santa Maria, Açores

por John Soares, em 06.11.20

 
 
Embora em termos de historiografia se admita hoje a data do descobrimento do arquipélago dos Açores por Diogo de Silves em 1427,  o cronista Diogo Gomes de Sintra em 1460 referiu a ilha simplesmente como Ilha de Gonçalo Velho:
 
 
"A mais chegada ylha dos Açores se chama Sancta Maria he ylha pequena e redonda. E tem huas baixas quasi em meo que se chamõ as Formigas por q sõ oyto bicos penedos sobre agoa.
Jaz esta ylha norte sull cõ a ylha de Sã Miguel e ha no traues 12 legoas e as Formigas quasi no meo.
Anno de 1444 mãdou ho Iffãte Dom Anrrique por capitã huu caualleyro chamado Gonçalo Velho comêdador da Ordê de Christus a pouorar esta ylha e outras, e pos a esta seu nome. s. ylha de Gonçalo Velho e despois da sua morte lhe poserõ nome ylha de Sancta Maria. Este capitã lançou nella porcos e vacas e ouelhas e cabras. E viueo nesta ylha alguns ãnos."
 
 

 
Frutuoso, posteriormente, confirma que, no Verão de 1431 Gonçalo Velho Cabral terá descoberto os ilhéus das Formigas:
 
 
"Pelas informações e notícia que o Infante D. Henrique tinha destas ilhas dos Açores, (...) no ano do Senhor de mil e quatrocentos e trinta e um, (...) tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro, chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem, por sua virtude, grande esforço e prudência, tinha muita confiança, o mandou descobrir destas ilhas dos Açores a ilha de Santa Maria, ou, porventura, também esta de São Miguel; o qual, aparelhando o navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e, navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar e se vêem da ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem;
Vindo a estas Formigas Frei Gonçalo Velho no novo descobrimento (...), não achando ilha frutuosa e fresca, senão estériles e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras, tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante seu senhor se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, donde partiram, sem mais ver outra coisa que terra parecesse, e dando esta nova ao Infante D. Henrique, juntamente dizendo seu parecer, que não havia por este mar outras terras senão aquelas duras pedras que nele somente acharam."
 
 

 
O cronista prossegue, narrando a descoberta da ilha de Santa Mariano (1432) e referindo a de São Miguel (1444):
 
 
"Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra coisa (...) no ano seguinte tornou, com rogos e com promessas (como alguns dizem), a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem, (...) houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1458. Mas isto não pode ser, porque commumente se disse e afirmou sempre, e assim se acha em algumas lembranças de homens graves desta ilha de São Miguel, que foi achada depois da ilha de Santa Maria ser descoberta doze anos, e se achou na era de 1444, como depois direi tratando dela; pois se esta ilha de São Miguel se achou nesta era de 444 e a ilha de Santa Maria foi achada primeiro que ela doze anos, como todos dizem, e nunca caiu isto da memória dos homens, quem de 1444 tira doze ficam 1432, que é o ano em que se achou a ilha de Santa Maria."
O arranque oficial da colonização do arquipélago foi determinado por carta régia de D. Pedro (regente durante a menoridade de D. Afonso V) passada em 2 de Julho de 1439, ao mesmo Gonçalo Velho, que deveria povoar as sete ilhas então conhecidas, onde já ante"A quantos esta carta virem fazemos saber que o infante D. Henrique, meu tio, nos enviou dizer que ele mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores e que, se nos aprouvesse, que as mandaria povoar. E porque a nós isso apraz, lhe damos lugar e licença que as mande povoar."
O povoamento iniciou-se naquele mesmo ano pela ilha de Santa Maria, seguida pela de São Miguel. Para incentivá-lo, a carta de 5 de Abril de 1443 concedeu a Gonçalo Velho, comendador do arquipélago, e aos moradores e povoadores das ilhas a isenção do pagamento da dízima e portagens "de todas as coisas que delas trouxerem ao reino".
 
Quanto ao local do primeiro estabelecimento, terá sido o do desembarque inicial pelos descobridores, erguendo-se a primeira casa e iniciando-se a lavoura de trigo:riormente mandara lançar gado:
"Como entraram, e a primeira terra que tomaram, onde saíram, foi, da banda de Oeste, em uma curta praia de uma abra que se faz antre a ponta da terra, que se chama a Praia dos Lobos, e outra ponta, que se chama o Cabrestante, onde vai sair ao mar uma pequena ribeira que corre todo o ano, chamada a ribeira do Capitão, por correr pelas suas terras, que naquela parte depois tomou para si, que são a Faneca, Monte Gordo, Flor da Rosa, Paúl, Roça das Canas, donde nasce aquela ribeira que vai ter ali ao mar, junto do Cabrestante; onde se fez pelo tempo adiante o primeiro coval [sementeira], junto da mesma ribeira, em uma pedra mole, como tufo, e amarela, como barro, que se corta à enxada, a que chamam saibro, no qual saibro, onde quer que o há na ilha, se dá o melhor vinho dela; onde se encovou o primeiro trigo que deu a terra.
 
 

 
(...) Assim que os primeiros que saíram em terra, ali junto do mar, ao longo daquela ribeira do Capitão, ou desta vez, ou da segunda, fizeram a primeira casa que na ilha se fez, e, depois, pelo tempo adiante fizeram outras pela ribeira acima, e esta foi a primeira povoação da ilha, e por isso escolheu depois ali o Capitão suas terras, que são as melhores da ilha, e dão mais e melhor fruto e trigo, quase como o de Alentejo, quando o ano é temperado e bom."
Por outro lado, Frei Agostinho de Monte Alverne refere que o desembarque dos descobridores se deu pela ponta do Marvão, a pequena distância da atual Vila do Porto: "Descoberta esta ilha, entraram pela ponta do Marvão; a mandou povoar logo o Infante, com gente e gado."
O padre António Cordeiro, com base em Frutuoso, a seu turno, narra:
 
"O descubridor, & Commendador Frey Gonçalo Velho Cabral desembarcou na Ilha pela parte de Oeste, em huma pequena praya, que chamàrao dos Lobos, por o parecerem assim as pontas de tal praya; & aque se fundou depois a primeyra povoação, junto a uma ribeyra que todo o anno corre: logo foy o Commendador correndo a Ilha toda à roda, parte por terra, & parte por mar, por a madeyra da terra não dar lugar a mais; (...)"
 
 

 
Na primeira povoação terá sido erguida ainda uma igreja cuja invocação a tradição não guardou. Com os povoadores vieram frades franciscanos que, já em 1446 tinham um pequeno oratório com observância,  obtendo licença da Santa Sé Apostólica por bula do papa Nicolau V, de 28 de abril de 1450. Dos nomes desses primitivos povoadores guardaram-se os de Gonçalo Anes de Semadença, Nuno Velho e Pedro Velho (sobrinhos de Gonçalo Velho e filhos de Diogo Gonçalves de Travassos e de D. Maria Álvares Cabral, irmã do descobridor), Pedro Álvares de Sernache (filho ou neto de Álvaro Anes de Sernache?), Estevão Lopes, e mestre António Catalão, pai de Genes e de Francisco Curvelo Catalão, que veio para as ilhas ensinar o cultivo e a indústria das canas de açúcar.
 
Novas levas significativas de povoadores para a ilha registaram-se, ainda no século XV, entre 1443 e 1445 e no ano de 1474. Embora tradicionalmente se afirme que o foi com famílias oriundas do Alentejo e do Algarve, não existem fontes documentais que o atestem. De acordo com Frutuoso, os primeiros povoadores eram oriundos de Moura (na realidade Mourão), Chamusca, Vila do Conde, Santarém, Santar, Tonda, Silgueiros, Besteiros, Guarda, Covilhã, Recardães, Estremoz, Trofa, Góis, Oliveira do Conde e Viseu.  A estes somaram-se mouros, judeus e também flamengos, estes últimos por influência de D. Isabel (esposa de Filipe III, Duque de Borgonha e condessa de Flandres), irmã do infante D. Henrique. A patronímica das famílias marienses, a arquitectura e a estrutura do povoamento, embora este ditado pela topografia, parecem confirmar esta tese. Também é assente que Vila do Porto foi a primeira vila açoriana a receber Carta de Foral, o qual data de 1470, constituindo-se no primeiro município dos Açores.

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publicado às 18:55


Descobrimento da ilha de S. Miguel, Açores

por John Soares, em 06.11.20

 

 Acredita-se que a ilha tenha sido descoberta entre 1426 e 1439 já se encontrando assinalada em portulanos de meados do século XIV como "Ilha Verde".  O seu descobrimento encontra-se assim descrito:

 

 

"O Infante D. Henrique, desejando conhecer se haveria ilhas ou terra firme nas regiões afastadas do Oceano Ocidental, enviou navegadores. (...) Foram e viram terra a umas trezentas léguas a ocidente do cabo Finisterra e viram que eram ilhas. Entraram na primeira, acharam-na desabitada e, percorrendo-a, viram muitos Açores e muitas aves; e foram à segunda, que agora é chamada de S. Miguel, onde encontraram também aves e Açores e, além disso, muitas águas quentes naturais."

Constituiu uma capitania única com a ilha de Santa Maria, tendo como primeiro capitão do donatário Gonçalo Velho Cabral. O seu povoamento iniciou-se em 1444, a 29 de Setembro, dia da dedicação do Arcanjo São Miguel, então patrono de Portugal e santo da especial devoção do Infante D. Pedro, então Regente do Reino, e que dá o nome à ilha.

 

 

Os primeiros povoadores desembarcaram entre "duas frescas ribeiras de claras, doces e frias águas, entre rochas e terras altas, todas cobertas de alto e espesso arvoredo de cedros, louros, ginjas e faias". Trouxeram consigo gado, aves e sementes de trigo e legumes e outras coisas necessárias. Fundaram então, a primeira "povoação de gente" na ilha que, mais tarde, ficaria conhecida apenas por Povoação Velha de S. Miguel, onde se ergueu a primitiva Igreja de Santa Bárbara, no local onde foi dita a primeira missa seca. Posteriormente, percorrendo a costa para oeste, encontraram uma planície à beira e ao nível do mar, que lhes agradou e onde decidiram fixar-se. A povoação ficou conhecida como "do Campo", e em pouco tempo receberia o estatuto de "vila franca" (isenta de tributos excepto o devido à Coroa de Portugal), o que contribuiu para atrair mais povoadores.

Entre os nomes destes primeiros povoadores registam-se os de Jorge Velho , Gonçalo Vaz Botelho, o Grande  e Afonso Anes, o Cogumbreiro , Gonçalo de Teves Paim  e seu irmão Pedro Cordeiro.

 

 

Visando atrair mais povoadores para esta ilha, de maiores dimensões e características geológicas mais dinâmicas do que Santa Maria, foi necessário oferecer maior incentivo ao povoamento, o que veio a ser expresso por carta régia de 20 de Abril de 1447, pela qual se isentam os moradores desta ilha da dízima de todos os géneros nela produzidos:

"Dom Afonso, etc. A quantos esta carta virem (...). Temos por bem e quitamos deste dia para todo sempre a todos os moradores que ora vivem e moram, ou morarem daqui em diante em a dita ilha de todo o pão e vinho e pescados e medeiras e legumes e todas as outras coisas que nela houverem e trouxerem a estes nossos reinos por qualquer forma. (...)"

 

 

Aos primeiros povoadores juntarão se  outros, oriundos principalmente da Estremadura, do Alto Alentejo, do Algarve e da Madeira. Posteriormente, alguns estrangeiros também se instalam, nomeadamente Franceses , e minorias culturais como judeus e mouros.

A posição geográfica e a fertilidade dos solos permitiram um rápido desenvolvimento económico, baseado no sector primário, voltado para o abastecimento das guarnições militares portuguesas no Norte d'África e na produção de açúcar e de urzela, um corante exportado para a Flandres. O sobrinho de Gonçalo Velho Cabral, João Soares de Albergaria, sucedeu-lhe no cargo. À época de Albergaria, anteriormente a 1472, receberam foral de vilas as localidades de Vila do Porto e de Vila Franca do Campo, as mais antigas dos Açores.

 

 

Por motivo de doença de sua esposa, D. Brites Godins, deslocou-se com ela para a Ilha da Madeira, em busca de clima mais favorável, sendo acolhidos pela família do capitão do Funchal, João Gonçalves da Câmara de Lobos. Aí foi decidida a venda da capitania de São Miguel, por 2.000 cruzados em espécie e 4.000 arrobas de açúcar. Este contrato teve a anuência da Infanta D. Beatriz, tutora do donatário, D. Diogo, duque de Viseu, conforme carta de 10 de Março de 1474, sendo ratificada pelo soberano nestes termos:

"Fazemos saber que Rui Gonçalves da Câmara, cavaleiro da Casa do Duque de Viseu, meu muito amado primo, e prezado sobrinho nos disse como lhe per a Infanta Dona Beatriz, sua madre e tutor, em nome seu, era feita a doação da capitania da ilha de San Miguel para sempre aprovamos e confirmamos a dita doação.".

Ficaram assim definitivamente separadas as capitanias de São Miguel e Santa Maria.

Vila Franca do Campo, mais importante porto comercial da ilha, considerada sua primeira capital, e onde esteve localizada a alfândega até 1528, foi arrasada pelo grande terramoto de 22 de Outubro de 1522, em que se estima terem perecido 4000 pessoas. Após a tragédia, os sobreviventes transferiram-se para a povoação de Ponta Delgada, logrando obter do soberano os mesmos privilégios de que gozava cidade do Porto, conforme já o gozavam os de Vila Franca do Campo, iniciando-se o seu desenvolvimento, de tal modo próspero, que Ponta Delgada foi elevada a cidade por Carta-Régia passada em 1546, tornando-se capital da ilha.

 

 

No contexto da crise de sucessão de 1580, aqui tiveram lugar lutas entre os partidários de D. António I de Portugal e de Filipe II de Espanha, culminando na batalha naval de Vila Franca, ao longo do litoral sul da ilha (26 de Julho de 1582), com a vitória dos segundos. Após a batalha, D. Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz de Mudela, desembarcou em Vila Franca do Campo, onde estabeleceu o seu quartel general e de onde fez supliciar por enforcamento cerca de 800 prisioneiros franceses e portugueses, no maior e mais brutal massacre jamais ocorrido nos Açores.

Pelo apoio dispensado à causa de Filipe II, a família Gonçalves da Câmara, na pessoa de Rui Gonçalves da Câmara, capitão do donatário, recebeu o título de conde de Vila Franca por alvará de 17 de Junho de 1583.

 

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publicado às 18:46


Descobrimento da ilha Terceira, Açores

por John Soares, em 06.11.20

 

A Terceira é uma das nove ilhas dos Açores, integrante do chamado "Grupo Central". Primitivamente denominada como Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo das Terceiras, foi em tempos o centro administrativo das Ilhas Terceiras, como era designado o arquipélago dos Açores. A designação Terceiras aplicava-se a todo o arquipélago do Açores visto ter sido o terceiro arquipélago descoberto no Atlântico (o arquipélago das Canárias era designado de Ilhas Primeiras e o arquipélago da Madeira por Ilhas Segundas, segundo a ordem cronológica de Descoberta). 

 

Com o avançar dos anos esta ilha passou a ser conhecida apenas por Ilha Terceira. Ao longo de sua história, a Terceira desempenhou um papel de grande importância no estabelecimento e manutenção do Império Português, devido à sua localização geoestratégica em pleno Atlântico Norte. 

"A ilha Terceira, universal escala do mar do  imponente, é celebrada por todo o mundo, onde reside o coração e governo de todas as ilhas dos Açores, na sua cidade de Angra, cujo porto está em trinta e nove graus da banda do norte." (Gaspar Frutuoso. Livro Sexto das Saudades da Terra). 

Não há certeza quanto à data de descoberta da Terceira, embora a mesma já figure em portulanos quatrocentistas. Foi inicialmente denominada como Ilha de Jesus Cristo e, posteriormente como Ilha de Jesus Cristo das Terceiras, até se afirmar a designação actual de apenas Terceira. 

 


O cronista Gaspar Frutuoso relaciona várias hipóteses para a sua primitiva designação: por ter sido achada a 1 de Janeiro, dia em que se celebrava  a festa do Santo Nome de Jesus; por pertencer ao Mestrado da Ordem de Cristo; por ter sido descoberta na Quinta ou Sexta-Feira Santas, ou em dia de Corpo de Deus; por ser a Sé de Angra da invocação do Salvador.

 A ilha começou a ser povoada a partir da sua doação, por carta do Infante D. Henrique, datada de 21 de Março de 1450, ao flamengo Jácome de Bruges: 

"Eu, o Infante D. Henrique (...) faço saber que Jácome de Bruges, natural da Flandres, me disse que (...) estando a ilha Terceira, nos Açores, erma e inabitada, me pedia que lhe desse autorização para a povoar, como senhor das ilhas. E eu, (...) querendo lhe fazer graça e mercê, me apraz conceder-lha.

 

 

E tenho por bem que ele a povoe da gente que lhe aprouver, desde que seja de fé católica." Bruges trouxe as suas gentes, muitas famílias portuguesas e algumas espécies de animais, tendo o seu desembarque ocorrido, segundo alguns estudiosos, no Porto Judeu, e, segundo outros, no chamado Pesqueiro dos Meninos, próximo à Ribeira Seca. Gaspar Frutuoso refere, a seu turno: "(...) Afirmam os povoadores antigos da Ilha Terceira que fora primeiro descoberta pela banda do norte, onde chamam as Quatro Ribeiras, em que agora está a freguesia de Santa Beatriz, que foi a primeira igreja que houve na ilha, mas não curaram os moradores de viver ali por ser a terra muito fragosa e de ruim porto. (...)."

 (FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra (Livro VI). cap. I, p. 8-9) A primeira povoação terá sido no lugar de Portalegre,  erguendo-se um pequeno templo, o primeiro da ilha, sob a invocação de Santa Ana. Tomadas as primeiras providências para a fixação das gentes, Brugues retornou ao reino a pedir mais pessoas para auxiliá-lo no povoamento. Nessa viagem, terá passado pela ilha da Madeira, de onde trouxe Diogo de Teive, a quem foi atribuído o cargo de seu lugar-tenente e Ouvidor-geral da ilha Terceira. Além destes titulares, vieram para a ilha alguns frades franciscanos para o culto religioso, visto que as ilhas pertenciam à Ordem de Cristo. 

 


Poucos anos mais tarde, Jácome de Brugues fixou a sua residência no sítio da Praia, lançando os fundamentos da sua igreja matriz - a Igreja de Santa Cruz - em 1456, de onde passou a administrar a capitania da ilha até à data do seu desaparecimento (1474), em circunstâncias não esclarecidas, acredita-se que durante uma viagem entre a ilha e o continente. 

Entre os primeiros povoadores cita-se ainda o nome de outro flamengo, Fernão Dulmo, que recebeu terras nas Quatro Ribeiras, entre o Biscoito Bravo e a ribeira da Agualva, lugar onde, segundo o historiador Francisco Ferreira Drummond "...ali desembarcou com trinta pessoas, cultivou a terra e deu princípio à igreja".

 Em 1460, após a entrega da capitania da Terceira a Jácome de Bruges, o Infante D. Henrique doou a ilha e a Graciosa ao Infante D. Fernando, seu sobrinho e filho adoptivo. Falecido este último (1470), assumiu a donataria, durante a menoridade do Infante D. Diogo, a Infanta D. Beatriz, sua mãe. 

Mediante o desaparecimento de Brugues, ela dividirá a ilha em duas capitanias, em 1474: a capitania de Angra - entregue a João Vaz Corte Real; e a capitania da Praia - entregue a Álvaro Martins Homem (embora este já tivesse iniciado o povoamento no lugar de Angra).

 

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publicado às 18:25


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