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Quando os fortes mostram suas fraquezas…

por John Soares, em 28.06.19

 

Os fortes também sofrem, também choram e,
na maioria das vezes, não têm ninguém para
lhes dar um colo ...

 

 

Os fortes também sofrem, também choram e na grande maioria das vezes não têm ninguém para lhes dar um colo, um conselho, uma mão amiga. As pessoas parecem se esquecer que os fortes também são seres humanos, parecem esquecer que todos têm seus momentos de fraqueza, pensam que o sofrimento é coisa que os fortes nunca ouviram falar.

Os fortes também sofrem, também choram e na grande maioria das vezes não têm ninguém para lhes dar um colo, um conselho, uma mão amiga, uma ajudinha, que seja, afinal de contas são pessoas fortes, elas aguentam.

A maioria das pessoas nem imagina que muitas noites são passadas em claro e o sono não chega, o que chega são todas as inseguranças e todos os medos que foram escondidos durante o dia; e foram escondidos para que se pudesse ser forte.

As pessoas não sabem que, no banho, é a hora que o choro vem, e vem de forma descontrolada, até que a última lágrima caia em meio a água que banha o corpo. É a vontade de lavar a alma! Depois, é só sair do banheiro e voltar a ser forte para sobreviver em meio a tantas angústias.

Então, quando uma pessoa forte demorar no banho, não critique, pode ser que ela precise chorar.

Os fortes sentem falta de um abraço apertado, sem que nada seja dito, o abraço diz tudo.

Muitas vezes os fortes passam a impressão de serem pessoas frias ou rígidas. Não se deixe enganar, é só uma forma de mostrar força, de mostrar que você pode contar com ela, que ela pode ajudá-lo quando precisar, é só uma forma de falar para ela mesma que ela é forte, forte para aguentar as pancadas da vida, forte para ajudar quem precisar, simplesmente forte quando cair e precisar levantar, mais uma vez.

A cada queda, a cada pancada da vida, os fortes acreditam que precisam demonstrar mais força, e isso ocorre para não preocupar as pessoas amadas, é mais uma forma de cuidar das pessoas que estão ao redor.

Quase todas as famílias têm alguém que é a pessoa mais forte, nem sempre é a pessoa mais amada, mas com certeza é a pessoa mais lembrada quando aparece um problema ou uma confusão, é a pessoa que pode ajudar, que pode resolver o problema.



Da próxima vez em que você reconhecer uma pessoa forte, lembre-se de olhar para ela com carinho e, quando possível, lembre-se de lhe dar um abraço apertado. Isso vai fazer um bem enorme para ela e ela vai lembrar na hora de dormir… e vai dormir mais rápido… e mais calma e agradecida por aquele abraço ou aquele olhar de quem a entende.

As pessoas fortes são frágeis, mas nunca vão demonstrar isso. Afinal de contas, elas são fortes.

Se encontrar uma dessas pessoas olhando para o nada, com os pensamentos longe, não atrapalhe, não pergunte nada, simplesmente deixe. É um momento raro de pôr os pensamentos no lugar, um momento onde os fortes se perdem e se encontram em seus próprios pensamentos.

Os fortes são pessoas que querem cuidar dos que precisam e as pessoas esquecem que ninguém cuida dos fortes.

 

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publicado às 22:11

Tristão da Cunha, é o nome – de origem portuguesa – da ilha mais remota do mundo. Localiza-se num arquipélago a Sul do Oceano Atlântico e pertence ao território ultramarino britânico de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha.

O nome deriva do navegador português Tristão da Cunha, que descobriu a ilha em 1507. Contudo, devido às difíceis condições de acesso, o pioneiro português não conseguiu lá atracar. Segundo o Telegraph, foi apenas em 1700 que a ilha se tornou habitável, depois de três caçadores de baleias americanos lá atracarem, tornando-se nos primeiros membros fundadores da Ilha Tristão da Cunha.

Atualmente, a única forma de viajar até à Ilha Tristão da Cunha é por mar, com partida na Cidade do Cabo, na África do Sul - não existe nenhum aeroporto -, e apenas é autorizada a entrada na ilha a um número restrito de pessoas com a entrada previamente reservada, aceite pelo Administrador e pelo Conselho da Ilha e com o pagamento validado! Na página oficial da ilha, pode, inclusive, verificar as condições e os métodos de pagamento, como os IBAN.

 

Tristão da Cunha é uma ilha vulcânica ainda ativa, composta por apenas 246 cidadãos e raras espécies animais, sendo, deste modo, considerada a ilha mais remota do mundo pelo Guiness.

No que diz respeito às aves, os Rockhoppers - ou Pinnamins, como os locais os chamam -, são uma espécie de pinguins que se reproduzem por viveiros espalhados pela ilha. São habitualmente reconhecidos pelas suas penas amarelas nas laterais da cabeça e pela forma como se movem em terra, aos saltos. São uma das espécies mais pequenas de pinguins e mais ágeis. Na ilha, os Pinnamins têm de atravessar caminhos íngremes e rochas no seu dia a dia, para conseguirem alimentar os seus filhos.

Os albatrozes são outras aves que pode encontrar na Ilha Tristão da Cunha. São animais em vias de extinção devido ao facto de serem vulneráveis aos acessórios de pesca, sendo capturadas com facilidade. Para além disso, na ilha estão sujeitos a outra ameaça, os ratos invasivos, que têm evoluído ao longo do tempo e acabam por capturar as crias dos albatrozes. Pode, ainda, encontrar na ilha Puffinus gravis, andorinhas e 7 espécies de aves terrestres.

 

Apesar de estar isolada, a Ilha Tristão da Cunha apresenta-se como uma ilha “autossuficiente”. Possui duas igrejas, uma anglicana e outra católica, posto de correios, museu, lojas de souvenirs, bares, restaurantes e cafés, piscina, casas de banho públicas, pubs e pistas de dança, transportes públicos e hospedagem gratuitos.

O idioma aqui falado é o inglês, misturado com dialetos locais bastante distintos e de visitantes que por lá passam e deixam a sua marca, derivando de diversas línguas como o Escocês, o Sul Africano, Alemão, Italiano e outras.

 

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publicado às 20:07


Dornes: a mítica terra dos Templários

por John Soares, em 26.06.19
Dornes

Dornes: a mítica terra dos Templários

Rio Zêzere, que é afluente da margem direita do Rio Tejo, é sem sombra de dúvida um dos rios mais bonitos de Portugal. Desde a Serra da Estrela até Constância, este rio é uma ininterrupta sucessão de belíssimas paisagens e de belíssimas vilas e aldeias. Esta beleza e a paz imensa que nas suas margens se respira fazem do Zêzere um destino turístico altamente recomendável para os dias quentes de verão. Junto a ele, poderá o visitante retemperar o corpo e consolar a alma.

Dornes

A vila de Dornes, que é sede de uma freguesia do concelho de Ferreira do Zêzere, é uma das localidades situadas nas margens do Zêzere cuja visita se recomenda. Fica sobre uma pequena península que é contornada pelo rio, já na parte formada pela albufeira do Castelo do Bode. Dornes é muito antiga, é anterior à fundação da nacionalidade.

 

Dornes

 

Talvez já no tempo dos lusitanos tenha existido uma povoação no mesmo local, se for verdade a afirmação que alguns fazem de que a torre da vila foi construída sobre as ruínas de uma outra torre, que Sertório teria mandado construir.

A vila de Dornes esteve muito ligada aos Templários. A sua torre pentagonal foi mandada erigir por Gualdim Pais (1118-1195), que foi grão-mestre da Ordem dos Templários em Portugal, como parte integrante de um sistema defensivo da Linha do Tejo contra os mouros, que incluía Tomar (onde estava a sede da Ordem), Almourol, etc. Visitar Dornes e visitar Tomar é mergulhar na história de Portugal e na história dos Cavaleiros Templários.

Dornes

 

No interior da torre de Dornes há diversas estelas funerárias templárias. A torre dos Templários em Dornes é uma belo exemplo da cultura Templária Portuguesa, na antiga e charmosa vila de Dornes, Dornes, situa-se na península do rio Zêzere A Torre dos Templários em Dornes foi construída em pedra de argila 72 anos antes da era cristã, durante o período romano na península ibérica.

 

Dornes

 

A Torre Templários em Dornes é muito notada devido à forma rara, 5 faces, o que faz da torre de Dornes um exemplo raro de arquitectura militar no período da Reconquista. A Torre dos Templários Dornes foi construída pelos templários para servir de linha defesa do Tejo. Nesses tempos, as conquistas eram feitas entre margens de rios.

 

Dornes

No entanto, as datas fundamentais são muito mais antigas, durante a época romana, e até é possível que fosse um local ocupado por mineiros em busca de ouro no rio Zêzere. A partir da torre e da Praça que a circunda, é possível ver toda a paisagem de diferentes ângulos com o sereno rio azul e belas e diferentes paisagens.

 

Património de Dornes

A dominar as casas baixas e predominantemente brancas fica a Torre de Dornes, uma edificação pentagonal, que se pensa ter sido construída pelos cavaleiros templários para vigiar o profundo vale do Zêzere.

 

 

A fundação da aldeia remonta ao século XII e está ligada ao aparecimento de uma imagem milagrosa de Nossa Senhora do Pranto. A primeira igreja foi mandada construir pela rainha Santa Isabel (filha do rei de Aragão e esposa do rei português D. Dinis) em finais do século XIII, substituída por uma de maiores dimensões no século XV.

Dornes
A Igreja de Nossa Senhora do Pranto possui um órgão de tubos oitocentista, imagens de pedra de Nossa Senhora do Pranto e de Santa Catarina, um púlpito de 1544 e um quadro a óleo denominado «Descanso na Fuga para o Egipto».

 

Gastronomia de Dornes

Destacam-se na gastronomia local os pratos confeccionados a partir dos peixes do Rio, como seja o Ensopado de Peixe. De entre as espécies aqui mais encontradas, destacam-se a carpa, a boga, o barbo e o achegan. Contudo também na classe das carnes encontramos algumas especialidades tais como o Leitão à Ferreirense ou o Cabrito assado, ambas comuns a outras freguesias deste Concelho.

 

Artesanato de Dornes

São já poucos, hoje, os residentes desta freguesia que se dedicam à população artesanal. Até há poucos anos atrás era relativamente fácil adquirir em Dornes as famosas rodilhas que por aqui se faziam em grande quantidade e em diversos modelos e tamanhos. Hoje encontramos “vestígios” dessa antiga tradição no atelier de D. Elvira Nunes Cotrim, em Dornes.

 

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publicado às 00:21

 
Igreja de Nossa Senhora da Estrela,
Ribeira Grande, S. Miguel, Açores


A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela localiza-se no largo Gaspar Frutuoso, na freguesia da Matriz, concelho da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel, nos Açores.
Remonta a uma ermida sob a invocação de Nossa Senhora da Purificação, que existiu no local em fins do século XV. Em 4 de Junho de 1507, dois meses antes da elevação da povoação a vila, deu-se início à construção de uma igreja matriz. Tendo como modelo a Igreja de São Miguel Arcanjo, em Vila Franca do Campo, a obra foi confiada ao mestre de obras biscaínho Juan de la Peña por 140 mil réis.

As obras foram concluídas em 1517, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela. Foi sagrada pelo bispo de Tânger, D. Duarte, que à época viera a São Miguel em delegação do bispo do Funchal. Na ocasião, foi depositada no altar-mor uma caixa com relíquias sagradas.

Os trabalhos de decoração prosseguiram pelo século XVI, sendo adquiridos painéis, retábulos e paramentos de grande valor artístico. O padre António Cordeiro refere-se a um altar aqui instituído por D. Mécia Pereira e seu marido, D. Gomes de Melo, que continha um painel dos Reis Magos, ainda hoje existente, e que deve datar de 1582, ignorando-se se terá sido executado na ilha ou trazido de fora.

 

 


Em 1581, quando foi sagrado o novo retábulo pelo bispo de Angra, D. Pedro de Castilho, foram juntas novas relíquias às já existentes, descritas em um pergaminho que ficou guardado na antiga caixa:

"Aos nove de Abril eu, D. Pedro Castilho, Bispo de Angra, consagrei este altar à honra da virgem, Nossa Senhora do Loreto, e nele meti as suas relíquias; a saber: Uma pequena partícula de pau e uma pouca terra de sua casa do Loreto e um osso das onze mil virgens e um osso pequeno de S. Sebastião. (...)"
O templo foi abalado pelos terramotos de 1563, 1564, 1571, 1588 e 1591. Por volta de 1680 a derrocada da torre sineira destruiu uma das naves e arruinou as demais. O então vigário Hierónimo Tavares chegou mesmo a cogitar a reedificação total, mas diante da dificuldade de recursos a mesma foi sendo adiada.

 


A 3 de maio de 1728 foram depositados na Igreja da Misericórdia, onde permaneceriam durante um período de oito anos em que durariam as obras, o Santíssimo Sacramento, imagens e objectos da Matriz. Após a demolição do antigo templo, iniciou-se a construção do actual, com projecto de Sousa Freire, então vigário da Ribeira Seca. Após o falecimento deste, as obras passaram a ser orientadas por Manuel de Vasconcelos. Os trabalhos prolongaram-se até 1736, com o contributo das esmolas da população.

Em 5 de Setembro de 1834, o tecto do templo desabou, tendo sido construído a expensas da Junta da paróquia.

Em 1862, o prior Jacinto do Amaral mandou restaurar as talhas de toda a igreja, tendo encomendado paramentos, imagens e pratas artísticas.

 




Aqui assistiu como vigário, de 15 de Agosto de 1565, data da sua posse, até 1591, ano do seu falecimento, o padre Dr. Gaspar Frutuoso, que chegou transferido da Igreja Matriz de Santa Cruz da Vila da Lagoa. Aqui, nos últimos anos de sua vida, redigiu a crónica que o imortalizou, as "Saudades da Terra". Os seus restos mortais aqui estiveram depositados por séculos até serem transferidos para o cemitério da vila.

 

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publicado às 12:57

48_n.jpgA Lenda da Calheta do Nesquim, ilha do Pico, Açores

A Lenda da Calheta de Nesquim recua ao século XVI e conta um acontecimento onde a história real se mistura com laivos de fantasia. Conta que o nome da Calheta de Nesquim teve origem num dos costumeiros acontecimentos fortuitos da vida.

Corria o século XVI, e bordejava a ilha do Pico um veleiro vindo do Brasil carregada de madeiras quando foi surpreendida durante a noite por uma forte tempestade. O barco ficou à deriva com o temporal e acabou por naufragar nas fragas da costa sul do Pico.
Da tripulação do barco somente três dos náufragos se conseguiram salvar. Informa a história que foram guiados pelos latidos do cão de bordo cujo nome era Nesquim. O Cão terá guiado os três homens com os seus latidos até uma pequena calheta levando ao seu salvamento. Em honra do cão que promoveu o salvamento destes três homens o local passou a designar-se “Calheta de Nesquim” e a formação rochosa de onde acedeu a terra, um morro costeiro próximo, passou a denominar-se “Morricão” e onde foi construído em Moinho de Vento. Para honrar este acontecimento a Calheta de Nesquim usa um cão no seu Brasão de armas como forma de eternizar para todo o sempre o acontecimento.

 

 

 


A história informa-nos que estes três homens se chamavam João Redondo ou Rodolfo, João Valim e o capitão que dava pelo nome de Diogo Vaz Dourado.
Destes três homens, João Valim fixou moradia na Ribeira do Meio, João Redondo foi viver para a Madalena do Pico, enquanto Diogo Vaz Dourado, por seu lado foi viver para o lugar que mais tarde passaria a denominar-se Foros.

 

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publicado às 12:40


D. Afonso VI, na ilha Terceira, Açores

por John Soares, em 22.06.19

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D. Afonso VI, na ilha Terceira, Açores

 

 

Há 350 anos, desembarca, na cidade de Angra, D. Afonso VI, a quem roubaram trono e mulher.

Aproaram à baía de Angra, no dia 17 de Junho, três fragatas e uma caravela, portuguesas, sem comunicarem com a terra. No dia seguinte fundearam na bacia da cidade e só no dia 20 desembarcaram em terra alguns oficiais a conferenciar com as autoridades locais, sabendo-se que a bordo estava el-rei, prisioneiro e desterrado, indo recolher-se no Castelo de São João Baptista.

Após combinação necessária e cautelosa, desembarcou Afonso VI, sendo saudado com as salvas do estilo, repiques de sinos nas paróquias e conventos e todas as mais demonstrações de respeito devidas ao rei. A população da ilha enchia as ruas da cidade e toda a guarnição do Castelo estava em armas.

Apenas pôs pé em terra Sua Magestade entrou para uma liteira que o aguardava, seguindo logo para a fortaleza com o comandante da armada e titulares que o acompanhavam. À porta do presídio foi esperado como rei, assim como tratado foi durante o tempo da sua permanência na ilha.


O povo recebeu, contristado, esta resolução do Regente, lamentando o procedimento do irmão, contudo soube manter-se sem um distúrbio, sem uma manifesta reprovação.

No dia 24 de Agosto de 1674, era o rei conduzido ao Porto Novo, por quatro fidalgos, e a bordo duma esquadra seguiu para o continente.

Ainda hoje se observa, no local onde o rei passeava demoradamente, as pedras gastas pelos seus passos, assinalando o sítio onde tanto amargurou.

 

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publicado às 12:24

 

ESTUDO REVELA QUE OS AÇORES
JÁ ERAM HABITADOS HÁ 1000 ANOS

 


Cientistas portugueses dataram por carbono-14 material vulcânico na ilha Terceira, acumulado durante séculos em sulcos de rodas no solo rochoso 

A atividade humana existe pelo menos desde o século XI na ilha Terceira, Açores, revela um estudo inédito sobre os materiais vulcânicos acumulados nas relheiras da Passagem das Bestas, localizada na Caldeira Guilherme Moniz, no lugar do Cabrito, mesmo no centro da ilha. As relheiras são sulcos deixados no solo rochoso mais plano devido à passagem de rodas de carro. Na Terceira estão identificadas 26 e algumas delas vão parar ao mar, mas há em todas as nove ilhas do arquipélago.

O estudo acaba de ser publicado na revista científica internacional “Archaeological Discovery” por uma equipa liderada por António Félix Rodrigues, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores, da qual fazem parte dois investigadores da mesma faculdade, Fábio Cardoso e João Madruga, e ainda Nuno Martins, da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa.

Os investigadores concluem que “comparando referências históricas com dados geológicos e pedológicos (dos solos) e análise física, encontramos evidências que apontam para as relheiras da Passagem das Bestas terem pelo menos 1000 anos” — mais de 400 anos antes da data oficial da chegada dos navegadores portugueses ao Açores, em 1431 —, o que significa que “não parecem ser romanas ou portuguesas”.

 

SISTEMA DE IRRIGAÇÃO?

Os parâmetros topográficos das relheiras “mostram claramente que os sulcos não foram feitos para conduzir fluxos de água para determinados locais”. Tendo em conta “a humidade e os padrões das chuvas na Terceira, bem como o perfil do solo na Caldeira Guilherme Moniz — a maior cratera de vulcão (já extinto) na Terceira, com uma entrada de 15 km de diâmetro —, não eram necessários sistemas de irrigação para a agricultura naquele lugar, assumindo que o clima nunca mudou, sendo o mesmo descrito pelo historiador Gaspar Frutuoso (século XVI) quando os primeiros colonos chegaram aos Açores”, consideram os cientistas. Aliás, “os sulcos correm paralelos a uma linha de 
água natural”.
 
 



O objetivo central da equipa de Félix Rodrigues era estudar e datar por carbono-14, no Beta Analytic Lab (Miami, EUA), os materiais vulcânicos depositados sobre as relheiras da Passagem das Bestas, na sequência da decisão da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo de as limpar para aproveitamento turístico. Com efeito, esses materiais, com acumulações de 50 centímetros a dois metros de espessura, eram compatíveis com o mapa de distribuição de cinzas provenientes da última erupção do vulcão do Pico Alto, que aconteceu há cerca de 1000 anos.
 

NEM PEDRA NEM MADEIRA

Mas era inevitável a discussão sobre a origem dos misteriosos sulcos que cruzam o solo rochoso em toda a ilha Terceira. Primeiro mistério: o que transportavam os carros que passaram continuamente, durante séculos, por estes caminhos de basalto? Pedra? Madeira? Produtos agrícolas? “Não sabemos”, reconhece António Félix Rodrigues. “A Passagem das Bestas, com mais de 300 metros de comprimento, é o único sistema de relheiras datado com rigor, mas se havia transporte de pedra nada foi detetado, ou seja, não se conhecem pedreiras naquela região”. E como há pedra em toda a ilha, “não faz sentido realizar este tipo de transporte”. A única hipótese seria “a obsidiana que existe naquela zona, rocha de grande valor comercial em qualquer época como pedra preciosa e para fabricar instrumentos cortantes. Mas nunca daria para a extração em larga escala que justificasse um transporte continuado ao longo de muitos anos e deixasse sulcos no basalto”, argumenta o professor da Universidade dos Açores, embora admita que a erupção vulcânica que cobriu as relheiras possa ter tapado eventuais pedreiras na área envolvente.

“A nossa análise parece confirmar uma importante observação feita por Francisco Ferreira Drummond, a maior autoridade e o historiador mais completo da ilha Terceira”, constata o estudo agora publicado. O historiador, que viveu no século XIX, concluiu na sua obra “Annaes da Ilha Terceira” (1859) que as relheiras encontradas na Terceira não foram feitas depois da chegada dos portugueses, mas por outra população humana que viveu na ilha antes de 1431. Curiosamente, o naturalista Charles Darwin, quando visitou durante seis dias o interior da Terceira em 1836, no regresso da sua célebre viagem ao arquipélago das Galápagos no navio “Beagle”, achou estranho que as relheiras da Passagem das Bestas fossem muito semelhantes às existentes no tempo dos romanos, no pavimento antigo de Pompeia, em Itália. Félix Rodrigues adianta que têm a mesma complexidade das relheiras milenares da ilha de Malta, no Mediterrâneo.

O professor apostou na investigação interdisciplinar. Foi por isso que Nuno Martins, especialista em História Económica, acabou por integrar a sua equipa. “São temáticas muito diversas daquelas sobre as quais tenho trabalhado”, conta o economista. “Mas durante uma investigação sobre as origens do capitalismo moderno, interessei-me pelo papel de Angra do Heroísmo nas rotas comerciais dos séculos XVI e XVII e li alguns cronistas e historiadores para melhor perceber esta temática, como Ferreira Drummond, bem como a passagem sobre a ilha Terceira de Charles Darwin, autor que tenho lido para melhor perceber a corrente evolucionista na economia.”

A hipótese do transporte de madeira na Passagem das Bestas “também é difícil de explicar”, considera Félix Rodrigues. A madeira mais apreciada, o cedro-do-mato, “nunca seria suficiente naquela zona para justificar um transporte regular, continuado, durante séculos”. Por outro lado, os dados históricos existentes, em particular os relatos de Ferreira Drummond, não referem a existência de uma exportação intensiva de madeira para o continente. “As relheiras não vão ligar o centro da ilha a nenhum porto, nomeadamente no sentido de Angra do Heroísmo, o melhor porto natural da Terceira”, assinala o professor da Universidade dos Açores.
 
 
ANIMAIS OU PESSOAS?

Segundo mistério: o artigo da “Archaeological Discovery” diz que “a irregularidade da superfície do solo rochoso onde as relheiras existem aponta para uma explicação diferente do uso extensivo de carros de bois”, como afirmam os historiadores. “Parece difícil para animais com cascos como bois, cavalos ou burros, moverem-se através desta superfície irregular com o declive existente no local.” Nos Açores, os carros de bois eram puxados por dois animais, “mas na Passagem das Bestas parte do sistema de relheiras apenas permite a passagem de um animal”.

Seriam então puxados por pessoas? Os investigadores dizem que sim: “apenas seres humanos podiam ter usado as relheiras”. E descobriram que a distância entre os seus sulcos paralelos é variável, o que os torna incompatíveis com a passagem de carros puxados por animais onde, obviamente, os eixos das rodas não eram extensíveis. Félix Rodrigues reconhece, por isso, que “continua em aberto uma explicação cabal do traçado, das distâncias entre sulcos e da sua profundidade, que varia entre os três e os 40 centímetros”.
 

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publicado às 18:58

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Início da viagem aérea de
Gago Coutinho e Sacadura Cabral

O projeto de fazer a travessia aérea do Atlântico Sul nasceu da colaboração dos dois homens que a levaram a cabo, e que possuíam conhecimentos complementares: Gago Coutinho era um cartógrafo ao serviço da Marinha e possuía já uma larga experiência nesse campo, tendo desempenhado várias missões de cartografia nas colónias portuguesas em África. Sacadura Cabral, por seu lado, era um piloto com larga experiência de voo. 

 

 

Os dois homens conheceram-se em África e partilhavam preocupações acerca dos problemas de localização e orientação em alto-mar, que se colocavam à navegação aérea.

 

Foi Sacadura Cabral, enquanto diretor dos serviços de aeronáutica naval, quem desenvolveu o plano de preparação técnica da viagem, para a qual escolheu o aparelho mais adequado. Gago Coutinho, por seu turno, aperfeiçoou o sextante, um aparelho que permitia a orientação do avião em pleno vôo, sem a necessidade de visualizar diretamente o horizonte.

 

Inventaram ainda um corretor de rumos, que permitia rectificar os desvios causados pelo vento. Após um período de testes, foi finalmente levada a cabo a viagem aérea entre Portugal e o Brasil, aproveitando o facto de decorrer a celebração do centenário da independência daquele país.

 

 

  • Como foi a viagem?

 

O hidroavião, batizado Lusitânia, descolou de Belém às 7 da manhã do dia 30 de março de 1922. Como era de esperar, Sacadura Cabral pilotava e Gago Coutinho seguia como navegador. A viagem foi feita em várias etapas e enfrentou diversas dificuldades.

 

A primeira escala foi em Las Palmas e a segunda, na ilha cabo-verdiana de S. Vicente. Aqui foram feitas as primeiras reparações ao avião. Seguiram então para as ilhas brasileiras de S. Pedro e S. Paulo, que localizaram sem dificuldade. Aqui o aparelho danificou-se de forma irreversível, obrigando ao transporte, por navio, até à ilha de Fernando de Noronha.

 

O governo português enviou um novo hidroavião, com o qual reiniciaram a viagem, mas uma avaria no motor obrigou-os a nova interrupção. Só com um terceiro aparelho, batizado Pátria, conseguiram finalmente retomar o curso da viagem, fazendo escala no Recife e noutras cidades brasileiras, até à chegada à capital do Brasil, o Rio de Janeiro, a 17 de junho.

 

Foram recebidos de forma entusiástica nas várias cidades onde pararam, assim como em Lisboa, depois de realizarem a viagem de regresso.

 

 

  • Foi, portanto, um sucesso?

 

A travessia do Atlântico Sul foi um completo sucesso, apesar dos percalços da viagem. O seu principal objetivo foi plenamente cumprido: era possível percorrer de avião enormes distâncias sobre o oceano de forma rigorosa e precisa, utilizando apenas instrumentos portáteis de navegação astronómica.

 

A jornada serviu de inspiração para viagens posteriores e constituiu um passo decisivo para o desenvolvimento das ligações aéreas entre os dois lados do Atlântico.

 

Os dois homens foram recebidos como heróis em Portugal e receberam diversas honras de estado. O seu destino foi, contudo, bem distinto: Sacadura Cabral morreu dois anos depois, num voo entre Amsterdão e Lisboa. Já Gago Coutinho teve uma carreira longa e frutuosa, quer ao serviço da Marinha e da aviação, quer como historiador e investigador de história náutica. Morreu em 1959, aos 90 anos.

 

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publicado às 13:11


Desempenhou uma papel muito importante
na História do país e é um local que vale a pena descobrir. 


 

Acha que a capital de Portugal sempre foi Lisboa? É do conhecimento geral que a primeira capital do país foi Guimarães mas poucos sabem que Portugal teve, ao longo da sua história, 5 capitais distintas, sendo que uma dessas cidades foi capital de Portugal em 2 ocasiões diferentes, ambas muito complicadas: a época da invasão espanhola e consequente domínio filipino e durante as guerras entre absolutistas e liberais. Falamos de Angra do Heroísmo, nos Açores. E caso esteja curioso, antes de lhe contarmos porque razão Angra do Heroísmo foi capital de Portugal, dizemos-lhe desde já que as restantes 4 capitais foram Guimarães, Coimbra, Rio de Janeiro e Lisboa.


Esta cidade, situada na ilha Terceira, foi um porto de escala obrigatório desde o século XV até ao aparecimento dos barcos a vapor, no século XIX. As suas imponentes fortificações de São Sebastião e de São João Baptista, construídas há cerca de 400 anos, são exemplares únicos de arquitectura militar. Excelente exemplo de um tipo de construção ou um conjunto arquitectónico, tecnológico ou paisagístico que ilustra um ou mais períodos significativos da história da humanidade.




Vila desde 1474, Angra foi, historicamente, a primeira cidade europeia do Atlântico (1534), implantada em consequência da abertura de novos horizontes geográficos e culturais proporcionada pelo ciclo dos Descobrimentos portugueses. Desenvolveu-se a partir de seu porto, que se revestiu de grande importância estratégica entre os séculos XV e XIX, ilustrando a passagem dos modos de viver e de construir da Idade Média para a modernidade proporcionada pelos Descobrimentos e pela Renascença.


Ao longo dos séculos esteve ligada à manutenção do Império Português, como escala obrigatória das frotas do Brasil, da África e das Índias. A cidade foi abalada por um forte terramoto em 1 de Janeiro de 1980, sendo então iniciados estudos para a sua restauração e protecção. A classificação pela UNESCO da zona central de Angra do Heroísmo como Património da Humanidade já em 7 de Dezembro de 1983 – a primeira cidade no país a ser inscrita na lista – reflecte a sua importância histórica e cultural.



Durante a sua história, Angra do Heroísmo foi capital do reino de Portugal mas, em condições bastante difíceis. A primeira e a mais complicada foram entre o dia cinco de Agosto do ano de 1580 e o dia cinco de Agosto de 1582 aquando da fundação do governo de D. António, Prior do Crato. A segunda foi anos mais tarde, em 1828, quando foi ali instalada a Junta Provisória, em nome da rainha D. Maria II de Portugal, pelo Decreto de 15 de Março de 1830. Os títulos atribuídos a esta cidade no ano de 1641 e em 1837 vieram confirmar a nobreza de carácter e a lealdade das pessoas destas terras.


A cidade de Angra do Heroísmo sempre teve parte activa na história de Portugal: à época da Crise de sucessão de 1580 resistiu ao domínio Castelhano, apoiando António I de Portugal que aqui estabeleceu o seu governo, de 5 de Agosto de 1580 a 6 de Agosto de 1582. O modo como expulsou os espanhóis entrincheirados na fortaleza do Monte Brasil em 1641 valeu-lhe o título de “Sempre leal cidade”, outorgado por João IV de Portugal. Posteriormente, aqui esteve Afonso VI de Portugal, detido nas dependências da fortaleza do Monte Brasil, de 21 de Junho de 1669 a 30 de Agosto de 1684.

Posteriormente Angra constitui-se na capital da Província dos Açores, sede do Governo-geral e em residência dos Capitães-generais, por Decreto de 30 de Agosto de 1766, funções que desempenhou até 1832. Foi sede da Academia Militar, de 1810 a 1832. No século XIX, Angra constitui-se em centro e alma do movimento liberal em Portugal. Tendo abraçado a causa constitucional, aqui se estabeleceu em 1828 a Junta Provisória, em nome de Maria II de Portugal.


Foi nomeada capital do reino por Decreto de 15 de Março de 1830. Aqui, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), Pedro IV de Portugal organizou a expedição que levou ao desembarque do Mindelo e aqui promulgou alguns dos mais importantes decretos do novo regime, como o que criou novas atribuições às Câmaras Municipais, o que reorganizou o Exército Português, o que aboliu as Sisas e outros impostos, o que extinguiu os morgados e capelas, e o que promulgou a liberdade de ensino no país.



Em reconhecimento de tantos e tão destacados serviços, o Decreto de 12 de Janeiro de 1837 conferiu à cidade o título de “mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo”, e a Rainha D. Maria II de Portugal condecorou-a com a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. A cidade sempre teve forte tradição municipalista, e a sua Câmara Municipal foi a primeira do país a ser eleita, já em 1831, após a reforma administrativa do Constitucionalismo (Decreto de 27 de Novembro de 1830).

Em Angra encontraram refúgio Almeida Garrett, durante a Guerra Peninsular, e a rainha Maria II de Portugal entre 1830 e 1833, durante a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). Por aqui passou Charles Darwin, a bordo do “HMS Beagle”, tendo aportado a 20 de Setembro de 1836. Darwin partiu daqui para a ilha de São Miguel em 23 de Setembro, após fazer um passeio a cavalo pela ilha, onde entre vários locais visitou as Furnas do Enxofre, tendo na altura afirmado que a nível biológico “nada de interessa encontrar”. Mais tarde, e reconhecendo o seu erro, pediu a vários cientistas, nomeadamente a Joseph Dalton Hooker, a Hewett Cottrell Watson e a Thomas Carew Hunt que lhe enviassem espécimes da flora endémica da Macaronésia e também amostras geológicas.

 

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publicado às 20:18


O golinho de leite ...

por John Soares, em 14.06.19

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... O golinho de leite ... 
... Versão de S. Miguel, Açores ...

 

- O mê rapá vá pá iscola pá semana, pá 1.ª classe. Quandê vi o sopressor onte no adre da Igreja e disse a iâle: sôpressor, é dá-le pela cabâça a baixe. Ca cabeça é que governa o corpe. Quandâle precisá é dá-le a pincadaria que fô precise. E quande ele chegá a casa ainda leva más - disse José a Mariano, sentados no Canto do Hospital ao fim da tarde de Domingo.
- Ê home, o tê rapá é ainda um petchene. Achas câle pecisa de levá porrada na iscola?
- Intã nã precisa?! Todes precisim. Cmué que qués que se deia o insine? Sâles nã levarim im pequinines nunca vã dá homes cme devedesâ.
Nessa altura, a receita sobre como educar as crianças era mais ou menos assim – à cautela e na dúvida, o melhor era usar a pancadaria como instrumento certo para todos os problemas. Batia-se ou ameaçava-se bater nas crianças por tudo e por nada. A torto e a direito, com mais ou menos violência. Assim se garantia o “respête”, um valor absoluto num tempo em que o dever de obediência surgia, talvez, como o mais importante. Obedecer às ordens era um valor em si mesmo, fossem quais fossem essas ordens.
André fora educado assim, tal como todos os outros rapazes da sua idade. Nada a fazer. Era o caminho certo para tratar de quase tudo o que à educação dissesse respeito, não causando censura de maior se o pai, o professor, o padre ou até mesmo um adulto batesse numa criança pelas razões mais diversas e por vezes mesmo fúteis. Especialmente se violado o dever de respeito, sendo a desobediência considerada uma das formas mais graves de desrespeito.
Já rapaz feito, André acompanhava o pai diariamente à terra, ali para os lados dos Atalhos, para o ajudar a ordenhar e a apascentar duas cabras e a transportar o leite às costas para a casa. Usado para fazer queijos, leite coalhado, sopas de leite e para vender o que sobrasse às vizinhas mais chegadas.
Mas no caminho para casa de ambos, que sucedia todos os dias sempre ao fim da tarde, encontravam sentado no canto de cima da rua de Santa Catarina o senhor António, considerado ancião que, com um rasgado sorriso no rosto dizia ao tio José, pai de André:
- Ê Jedé, dexa-me prová o letche das tuas cabras. Dizem cos tês queijes sã os melhós da Maia.
- Ê senhô Antóne, ê nã sê so letche é o melhó, mas o queije é bum. 
E acrescentava:
- André, dá a lata do letche ó Sô Antóne pra iâle prová o letchinhe das nossas cabrinhas.
André, como não poderia deixar de ser, obedecendo ao pai, deteve-se na sua caminhada, tirou das costas a lata de leite, colocando-a no chão, tirou-lhe a tampa e entregou-a ao senhor António que, com um farto sorriso, a aguardava impaciente.

Levada a lata à boca, o senhor António, que pedira apenas para provar o leite das cabras para atestar se era tão bom como se dizia, não havia maneira de a baixar. Era uma prova bem demorada, traduzida numa interminável sucessão de goles, reduzindo o nível do leite da lata bem abaixo do que se poderia imaginar. 
Ambos, pai e filho, entreolhavam-se, bem sabendo que aquela sucessão sem fim de goladas causaria uma óbvia perturbação no equilíbrio precário da economia familiar – menos queijos e menos leite para vender.
No dia seguinte, lá estava novamente o senhor António, repetindo o rasgado sorriso, assegurando que o leite era mesmo bom, mas, ainda assim, pedindo mais “um golinho”:
- Ó Jedé, é verdade. O letche das tuas cabrinhas é um bele letche. É mâme de veras o que dizim. Dexa-me prová más um bocadim. Ê goste de bebâ um bocadim de letche todes os dias antes da ceia. Dâ-me pra iste, qui é que tu qués?!
E o tio José e o filho André, respeitosos com o senhor António, lá repetiram o procedimento, ainda que um pouco incomodados e receosos e sempre com os olhos postos no interminável “bocadim” de leite que o senhor António quis voltar a experimentar, com as consequências conhecidas.
No dia seguinte, ao contrário do que era costume, André descia o caminho com a lata de leite de cabra às costas bem à frente do pai, o que causou alguma hesitação no reputado senhor António que, como sempre, os aguardava no Canto.
Esboçou um gesto em direcção de André que, fingindo não reparar nele, seguiu em frente a passo firme. O senhor António, meio confuso, disse ao tio José ainda um pouco lá atrás:
- Ê home, o tê rapá vá sempre pá frente. Manda-le vi pa trás.
- Oh André, andáqui. O Sô Antóne qué dá um golim no letche das nossas cabrinhas, cmó costume.
- Ê me pá, ê nã vou...
- Ê rapá, andáqui, quê tou-te mandande. Ê sou tê pá.
- Ê mê pá, ê nã vou.
- Sabe, Sô Antóne. O mê André é um petchene muntche obediente, mas quande âle diz que nã, é mâme nã! Nã há nada a fazâ!

 

Por : Roberto Pereira Rodrigues

 

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