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"5 minutos... Só peço 5 minutos para mim!"

por John Soares, em 19.11.19

2.jpgComo as mães fazem, ninguém sabe...

 

Não se ter nem cinco minutos não é bem um desabafo; é mesmo assim. E este lado da vida duma mãe, quando se tem um bebé, nem sempre é conversado como devia. E devia! Porque implica as noites dormidas "aos soluços", porque as cólicas insistem em fazer-se sentir. E adormecer a amamentar, por exaustão. E acordar, estremunhada, várias vezes por noite, só porque o bebé esboça um som e a leva a imaginar que vai começar a chorar. E acordar, outra vez, porque o irmão do bebé tem um pesadelo e, entretanto, acorda e protesta. E, como se não bastasse, parece (ele também), desarrumar e trocar os sonos e, em vez de dormir uma noite de seguida, volta a acordar às quatro ou às cinco e, para que ninguém faça "braços de ferro" pela noite dentro, acaba a dormir na cama dos pais, contra tudo aquilo que devia ser. E quando, finalmente, a madrugada parece convidá-la a um breve descanso, o sono é interrompido pelo seu filho mais crescido que, entretanto, já acordou e está mais do que pronto para um dia cheio de tarefas inadiáveis. E, depois, há sempre mais um "conta uma história" que ele reclama. E a roupa do mais bebé que, entretanto, quase de surpresa, deixa de lhe servir. E a necessidade de ir, num intervalo das mamadas, comprar mais um body, sempre a correr. E o mais velho que, entretanto, só come se for a mãe a convencê-lo. E, ainda a mãe mal começou a dar-lhe de comer, já o outro, mais bebé, esfomeado, reclama por ela. E, entretanto, a mãe desdobra-se e acaba com um no colo enquanto o outro "luta" porque não gosta de ervilhas. E, depois, enquanto um vai fazer uma sesta o outro interrompe-a, quando chora. E, entretanto, o mais velho fala alto de mais e o bebé desperta, pontualmente, mal-humorado. E há sempre um "Eu devia ir ao cabeleireiro" que espera por melhores horas num dia qualquer. E uma lista de compras que, só de pensar em arejar, sabe como se fosse mel, por mais que se leve por diante num espécie de correria. E, já agora, a caminho das compras, talvez se consiga passar por um parque para que o mais velho corra e "chilreie". E, logo depois, há mais isto e mais aquilo. E mais e mais. Menos os cinco minutos "só para mim" que tardam em aparecer. "Não tenho nem cinco minutos para mim" não é bem um desabafo; é mesmo assim!

 

Como é que as mães fazem para que, ao fim de todos os cinco minutos que não têm, tudo o que lhes faz falta para se sentirem equilibradas não lhes desabe sobre a cabeça, não as leve a "desarrumarem-se" nem as desequilibre, torna-se quase um mistério. Porque, em cima do tempo que não têm, as mães têm de pensar numa creche, nos arrufos do pai do bebé, na forma como ele parece não perceber a sua exaustão e o seu cansaço, e insiste em viver distraído ou adormecido para tudo isto. E têm um emprego e os compromissos que daí resultam, com ela, de coração apertado, a pedir desculpa por precisar de ir ao pediatra, com o mais novo. E, depois, para que tudo se complique, logo a seguir, o mais velho constipa-se e ela (sempre ela) falta, de novo. E tudo se passa com um equilíbrio muito para lá de tudo aquilo que se possa perceber.

 

Pode-se perguntar se tem de ser sempre assim. Se têm de ser as mães a "pagar" quase todas as despesas da maternidade. E a resposta é não, claro. Não tem de ser assim! Mas é; para muitas mulheres. Para quem os "cinco minutos só para mim" quase nunca aparecem. Como é que, apesar de tudo, elas conseguem ser bondosas e fortes e ternas e brincalhonas e sensatas e atentas, sem muitíssimos cinco minutos só para elas, que lhes faltam há tempo de mais? Só mesmo as mães é que sabem como se faz...

 

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publicado às 18:16


Se não discutimos, estamos bem ...

por John Soares, em 19.11.19

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Estranha forma de sentir ...

 

Pior do que ser infeliz é ser, medianamente, feliz. É reconhecer que "as coisas funcionam" sem que, no entanto, nada nos encante. E sentir que "a vida corre" mesmo quando os dias são iguais e tudo neles parece que a engonha. Ser medianamente feliz é ser infeliz; devagarinho.

Ao contrário, ser, abertamente, infeliz amarfanha-nos por dentro, e magoa-nos. E engelha a alma e atordoa. Mas, ao menos, é "preto e branco". E reconhecemos o sofrimento e perscrutamos as suas razões. É uma dor com verdade. Já ser-se medianamente feliz é uma forma "copo meio-cheio" de nos reconhecermos como moderadamente infelizes. E é ser-se infeliz "pela positiva". E isso é mau!

"Se não discutimos, é porque as coisas estão bem" deve ser das "fórmulas" que mais nos empurram para sermos infelizes devagarinho. Porque não nos faz sentir traídos mas não nos torna atractivos. Porque não nos empurra para a esperança nem nos mergulha no desespero. Porque não nos torna nem tristes nem alegres. E não nos faz sentir nem sós nem acompanhados. Ser medianamente feliz é ser quase feliz e quase infeliz. Ou nem feliz nem infeliz. E ser "nem-nem" é não saber, sequer, quem se acaba por ser. Porque quem nos devia amar não nos faz descartáveis nem indispensáveis.

Quando não se pode pode ser ou feliz ou infeliz, devia ser proibido ser moderadamente feliz! Porque, assim, isso nos levaria a fazer à vida com outra genica. Em vez ficarmos à espera que ela resolva por nós aquilo que nunca se resolve sem nós.

Não discutir não significa que estamos em sintonia ou em harmonia. É desistirmos de nos emparelhar antes de desistir de se amar. É desistir de viver antes de reconhecer que se que se está a morrer.

 

 

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publicado às 17:42


As pessoas ficam feias quando crescem ...

por John Soares, em 19.11.19

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... Mas não deviam ...

 

1. As pessoas ficam feias, quando crescem. Reconhecem, secretamente, que o seu crescimento acabou por ser precipitado. Precipitado nas escolhas que fizeram: por birra e por impulso. E por descuido, certamente. E amealham muitos pequenos desamparos. Desamparos nos pequenos gestos de atenção que não lhes dão e que as magoam. Em silêncio. Desamparos nos mimos que, por mais que não queiram, lhes chegam (quase sempre) mal embrulhados. Desamparos porque ninguém parece falar a língua delas como se tivessem um idioma de gestos e de sinais encriptados que se entaramela antes de se apear pelas palavras. Desamparos porque, por mais que ameacem mil vezes que o farão, os pequenos-nada, importantes para elas - que lhes dão vida e cor e movimento - não cabem nem nas frestas dos seus dias e as prioridades dos outros chegam sempre antes. Desamparos quando sentem da vida um burburinho de espuma, como quando as ondas se esticam pela praia, mas nunca as cavalgam. E parecendo ter vontade-própria, não se deixam marear. Desamparos porque são poucas - muito poucas - as ocasiões em que alguém lhes diz, devagarinho, quase sempre sem querer: "penso em ti!".

 

As pessoas ficam feias, quando crescem. Porque se atropelam, dentro delas, muitos ressentimentos. E porque cultivam mágoas. E se enovelam no desejo de quererem recomeçar e na dor de não o poderem fazer do princípio, como se qualquer dor, agora, avivasse mais o que deixaram por fazer do que aquilo que virá. E porque, sendo sábias, parece que não prosperam: antes minguam.

 

2. Se a crise da adolescência aceita, com dificuldade, a distância entre aquilo que imaginamos dos pais e o que eles nos dão, a das pessoas, quando crescem, estende-se entre aquilo que dão aos outros e o que a vida lhes dá (como se, sem saberem porquê, ela se tornasse, muitas vezes, um estranho de saída). Há muitos: "Falhei!", envergonhados, dentro das pessoas, quando crescem. E alguns: «Não sou quase nada daquilo que podia ser. E que teria querido ser. E que teria sido se tivesse dito: “Agora, eu quero!... algumas vezes”».

 

Nas pessoas, quando crescem, os remorsos cavam trincheiras e o rancor parece que entedia. Tudo se passa como se cada dia, antes de ser vivido, fosse tarde demais.

 

3. Mas são estas pessoas que ficam feias, quando crescem, que as crianças reconhecem como pais e como professores. E que deviam pôr-se com elas num: “Pergunta-me porquê?” próprio de quem já descobriu que os dias nunca têm só uma, mas muitas cores. E que esperávamos que contrariassem a estranheza do “o que ou quem morre em mim?” que se cola cá dentro quando o corpo parece ser pequeno para tudo aquilo que deixamos por fazer.

 

São as pessoas que ficam feias, quando crescem, que (muitas vezes) nos guiam de planalto em planalto sem nunca deixarem de nos viver fechados no seu sofrimento. E que parecem pôr um “para sempre!” (onde faltam gestos e clareza e fantasia e laços). Quantos de nós não faremos da eternidade a única alternativa ao tempo que perdemos?

 

4. As pessoas ficam feias, quando crescem. Mas não deviam! Bastava que aceitassem que todos somos sensíveis e sábios, sempre que os outros nos lêem enquanto os lemos. E que não somos os únicos que imaginam que não há nem céu nem bem nem mal, mas pessoas. E, como todos, desconfiamos que as pessoas não se podem medir, unicamente, por aquilo que fazem. Ou são, sobretudo, boas ou são más. Ou as sentimos bonitas ou são feias. E quem vive de certezas ou se barrica em impasses é um labirinto à procura da sua própria saída.

 

5. As pessoas ficam mais bonitas quando se precipitam. E quando erram. Sobretudo, muitas vezes. E logo que reclamam, de viva voz, a atenção que lhes falta. E quando pedem mimo, em gestos bem embrulhados. E quando reconhecem que a língua só se entaramela quando se fala para dentro. E que os pequenos-nada são tudo o que torna a vida grande e luminosa. E ficam mais bonitas quando se navegam. Ao leme! E quando namoram. E quando brincam. E sempre que aceitam que crescer é ganhar tempo ao tempo.

 

Na verdade, ninguém é um exemplo para ninguém! É o desafio de ter em quem acreditar que separa os maus exemplos das ocasiões em que alguém nos diz, devagarinho, quase sempre sem querer: "penso em ti!". E só assim a vida volta para nós. Pelo seu pé. Mais uma vez.

 

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publicado às 17:16


Porque é que o amor nos dá azar ?

por John Soares, em 19.11.19

rr.jpgA resposta, não sendo bonita, talvez possa ser ...

 

Se nunca tentamos o suficiente a ponto de nos sentimos com legitimidade para dizermos que o amor nos “dá azar”, porque é que, em relação a ele, passamos a vida a fazermo-nos de vítimas? A resposta, podendo não ser bonita, talvez possa ser esta: em relação ao amor somos, muito provavelmente, uns grandessíssimos medricas. 

 

Tanto é assim que aquilo que dizemos uns aos outros sobre o amor dá que pensar. Às vezes, reconhecemos que talvez nos falte “a força da vontade” para lutar por ele. Às vezes, parece que nunca temos “aquilo que é preciso” para gostarem de nós. E - mais vezes, ainda - alimentamos uma ideia (um bocadinho “tirem-me daqui”) de que teríamos de ser “especiais” para merecermos o amor a que temos direito. Porque é que disfarçamos os nossos medos com “fórmulas” mais ou menos habilidosas? Por outras palavras: porque é que lutamos tão pouco pelas coisas em que acreditamos? Talvez porque, por medo, acreditemos menos nelas do que possa parecer. 

 

Serão, então, os nossos pais que, pelos exemplos de amor que não nos deram, nos terão “amachucado a convicção” de que o amor pode ser muitíssimo mais do que uma relação, simplesmente, fraterna? Em parte, acho que sim. Porque repetimos mais vezes os seus erros do que desejaríamos. E, já agora, porque nos custa muito imaginar que podemos ser melhores que eles e que havemos de conseguir conquistar aquilo em que eles possam ter ficado mais ou menos “a meio”.

 

Mas, apesar dos “maus exemplos” de amor com que crescemos, talvez nos tenhamos sentido todos amados a ponto de, “lá no fundo”, não deixarmos de acreditar que o amor acontece. Seja como for, se o “lá no fundo” já de si me incomoda (porque equipara o amor a uma exploração mineira ou a uma espécie de “salto no escuro”, maior do que devia), o “acontece” preocupa-me muito mais. Porque introduz uma atmosfera do género “vamos dar tempo ao tempo” que nos leva a nunca guardar para amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã. A verdade é que, em relação ao amor, parecemos ter todos uma posição muito passiva. Muito dada à “preguiça”. E muito assustada. E desfazemo-nos em desculpas. Mas, no amor, aquilo que nos trai é o medo. É por medo que passamos a vida a fazer de sapo. À espera que alguém, sem termos feito quase nada para o merecermos, repare em nós, nos pespegue uma grande beijoca e... zás: nos liberte dum feitiço e nos transforme no “príncipe” que teremos, mais ou menos cativo, dentro de nós. Ora, que todos somos muito mais bonitos do que a “maquilhagem” que pomos deixa supor, eu sei que é verdade. Mas que cheguemos ao amor timidamente e numa atitude meio-encolhida, sem nunca lutarmos por ele com garra e com paixão, é que me merece as maiores dúvidas. 

 

É verdade que os nossos pais nos deram, porventura, mais “maus exemplos” de amor do que supunham. Mas é, também, verdade que, com falhanços e tudo, nos souberam amar. Sendo assim, aquilo que nos dá azar ao amor não sem nem os maus exemplos nem o medo, simplesmente. Nem aquilo que nos falta saber sobre o amor. (Afinal, por muito que nos falte muito para sabermos todos sabemos que não é possível amar sem medo, sem fé e sem dor. Que a felicidade exige luta, determinação e muito trabalho. E - quase parece mal dizer assim - exige capacidade de sofrimento. Que aquilo que, hoje, nos faz feliz, amanhã não está em saldo. E que imaginar o amor e lutar por ele são coisas diferentes.) Aquilo que, no amor, nos dá azar é a falta de humildade. Essa ideia de que o medo se mascara com a vaidade. Como se com medo nos tornássemos mais fracos. Quando é a coragem de o vivermos que nos faz fortes. E a humildade de o repartirmos quem mais o leva de vencida.

 

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publicado às 17:06


Quando o amor não é um destino ...

por John Soares, em 19.11.19

rr.jpgQuando o amor não é um destino

 

Todos casamos para sempre e nos divorciamos todos os dias. E é talvez essa “montanha russa” de coisas que se sentem que torna o amor tão fácil e tão impossível. Ao mesmo tempo.

 

Quando se casa, é para sempre. É para sempre quando, do ponto de vista duma confissão religiosa, o amor, como uma graça, se revê no testemunho dum gesto, sentido como sagrado, que se tem sob a benção de Deus. E que nos leva a reconhecer nesse “sempre” de “duas pessoas num mesmo destino” uma “ponta de eternidade” que os chega mais para o pé de tudo o que é divino. E casa-se para sempre porque, depois de casados (de ligados, por dentro, a alguém), nunca mais nos divorciamos. Porque depois de uma pessoa entrar na  nossa vida ela não sai. E sai menos, ainda, quanto mais queremos que se esfume ou desapareça, “para todo o sempre”, da nossa memória; para não voltar. Como se esse “sempre” que ela representa em cada recordação fosse uma nódoa ou um pesadelo que nos persegue; e não devia. Mas há um casar para sempre mais sério e mais “clandestino” de que, raramente, se fala: aquele se conquista quando não se desiste do namoro. Se namorarmos para sempre casamos todos os dias. Casar é, bem vistas as coisas, uma tarefa interminável. Porque namorar é aquilo que nos leva a casar; por mais que a maioria das pessoas, quando se casa, deixe de o fazer. Por outras palavras, seja qual for o ponto de vista pelo qual ele se veja, todos os casamentos são para sempre. 

 

Mas, - há sempre um mas... - divorciamo-nos, mais facilmente do que pode parecer, todos os dias. Basta que passemos do namoro à preguiça, ao desmazelo, ao desconhecimento ou à decepção dos gestos, que não damos. Sendo assim, não quer dizer que sermos contra o divórcio nos torne a favor do casamento. Aliás, vendo bem, não há como ser contra ou a favor do casamento ou do divórcio. Há coisas que valem por si. Ou por aquilo que nos fazem sentir. Por mais que sejamos contra elas. Ou a seu favor. 

 

Quando é que somos felizes? Quando nos casamos. Isto é, quando dois destinos se cruzam num ponto que,  surpresa, lhes é comum. 

 

E quando é que somos medianamente felizes? Quando nos divorciamos. Quando assumimos que aquilo que nos liga não compensa nem ilude tudo aquilo que separa. E voltamos, de novo, a ser donos (de encontrar)  dum “destino” “escrito”, também, por nós. 

 

Já agora, quando é que nos tornamos infelizes? Quando vivemos com indiferença aquilo que nos casa e nos separa. Como se o amor não fosse nem fácil nem impossível. Nem um destino, sequer. E fosse estranho a tudo a quem que, de bom ou de mau, nos traz o “sempre”.

 

 

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publicado às 16:49


Amar, fazer amor e fazer sexo ...

por John Soares, em 19.11.19

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As pessoas falam muito pouco do amor.
E assumem-no, menos ainda, como “o objectivo” das suas vidas

 

Muitos de nós, quando olhamos para trás, reconhecemos - com a nossa experiência de vida ao dia de hoje - que teremos assumido uma relação (e que, depois, teremos casado), sobretudo, para podermos conviver com a sexualidade sem termos de nos confrontar com os reparos dos nossos pais. E que, muitos, mantenham essas mesmas relações, sobretudo por causa dos nossos filhos. Por outras palavras, são muitas - mas, mesmo, muitas - as pessoas que não têm com a sua sexualidade uma relação simples, cúmplice e apaixonada. Na verdade, parecem-na viver como uma espécie de “imposto de valor acrescentado” duma relação (que já foi amorosa). Não contando com as pessoas que não a vivem, simplesmente, ora há meses ora há anos; por mais que coabitem e convivam com um mesmo parceiro. É claro que se as questionarmos acerca do seu amor por essa pessoa, acredito que o assumam e o reclamem. Mas pelo tom com que o fazem parecem não se sentir tão amadas como mereceriam. Nem parecem viver a sexualidade da forma tão intensa como a terão desejado. É claro que as pessoas terão “mil motivos” para parecerem sempre “zangadas”. Mas a forma como se sentem mal-amadas não será estranha a nada disso.

 

É normal que todos cheguemos à sexualidade “cedo demais”. Isto é, com experiências de vida e experiências amorosas mais ou menos rudimentares. Ou, mesmo, “frágeis”. E que, depois, tudo se passe tão depressa que nos é difícil viver e pensar aquilo que vivemos quase ao mesmo tempo, e duma forma esclarecida. Será possível imaginar um amor adulto à margem da sexualidade? Eu acho que não. Mas talvez a maioria das pessoas o faça. Contra tudo aquilo que mais queria.

 

Talvez seja por isso que as pessoas falem muito pouco do amor. E o assumam, menos ainda, como “o objectivo” das suas vidas. Mais depressa reconhecem que “amam” um alimento, uma viagem ou uma opção de vida do que amam uma pessoa. E se, há algum tempo atrás, era frequente que, nas revistas ou nas séries, se falasse de “fazer amor”, tem-se vindo a banalizar o “fazer sexo”. E talvez isso queira dizer alguma coisa.

 

Há uma diferença entre “fazer amor” e “fazer sexo”. “Fazer amor” pressupõe que a sexualidade consolida o amor. “Fazer sexo” que ela se dá à margem do amor. É claro que as pessoas “fazem sexo” ou “fazem amor” como muito bem entendem. Mas a forma como se banalizou a expressão “fazer sexo” por oposição a “fazer amor” diz bem que o amor e a sexualidade andarão, por aí, numa relação difícil. , Por mais que, “oficialmente”, muitos casais assumam que se amam, pela forma fácil como deixaram cair o “fazer amor” em relação ao “fazer sexo”, talvez queira dizer que o amor já terá conhecido dias melhores. E, se for assim, é trágico. Em primeiro lugar, porque o amor adulto expande e revoluciona; e traz bondade, sabedoria e beleza. Depois, porque a sexualidade, num amor adulto, nos leva a namorar com a vida. Sem amor e sem se “fazer amor” o que sobra, então? Um erotismo volátil. E solidão; muita solidão. Todavia, “assistida”.

 

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publicado às 16:36


Amo-te ! ... Mas somos só amigos ... Sim ?...

por John Soares, em 19.11.19

rr.jpgVendo bem, sem sexualidade não há casamento...

Vendo bem, sem sexualidade não há casamento. Por outras palavras: é a sexualidade que "consuma" o casamento. Na verdade, é a sexualidade que nos leva a esclarecer se estamos casados, por dentro, com uma pessoa. É a sexualidade que segura, por muito tempo, um casamento. Quando elas escasseiam, é a sexualidade que dá a um casal a maior parte das poucas experiências de intimidade a que é capaz de chegar. E é a sexualidade que inaugura a descoberta de que a pessoa com quem a vivemos não nos conhece, não nos deseja, nem nos ama como precisaríamos que acontecesse. Ou seja, é a sexualidade quem mais nos casa. E é ela quem primeiro nos esclarece que nos estarmos a divorciar, devagarinho.

 

O que se passa, imensas vezes, é que muitas das nossas reticências secretas, em relação a uma pessoa, com a sexualidade ficam a nu. E os seus gestos mais súbitos, aclaram-nas. A forma como ela não nos arrebata, esclarece-nos. E o jeito como não somos o desejo um do outro elucida-nos. Na sexualidade, despimo-nos mais por dentro que por fora. Com ela, ficam a "cru" muitos aspectos de nós que a "maquilhagem dos dias" consegue disfarçar. Às vezes, ficamos mais bonitos. Muitas vezes, nem por isso. De vez em quando, empurra-nos para que tudo fique mais decepcionante. A sexualidade não diz, por nós, todas as palavras que nunca nos dissemos. Nem nos compensa de toda a intimidade que não construímos. A sexualidade ajuda o amor. Mas, por vezes, ilude a sua ausência. E pode, ainda, noutros momentos, como pouco mais na nossa vida, acentuar a solidão que, distraidamente, nos foi passando despercebida.

 

Talvez, por isso, a sexualidade seja, para muitos de nós, o "débito conjugal" com que alguma teoria jurídica a tomava quando se tratava de falar dos deveres conjugais. Como se fosse uma obrigação. Uma espécie de "febre de sábado à noite", mais ou menos ritualizada. Sem a paixão, o desejo e a graça que ligam duas pessoas ao encantamento que faça de cada uma delas o melhor da outra. E que as leve, às duas, a sentirem uma relação amorosa como uma experiência (adulta) de comunhão que as arrebata e as transforma. E as faz, seguramente, tornarem-se mais transparentes, mais simples, mais bondosas e mais bonitas. Talvez seja por isso que, no discurso público, a expressão "fazer amor" vá dando lugar a "fazer sexo". Pode parecer uma pequena diferença, mas há uma imensidão de pequenas coisas que as separa. Quando o melhor das poucas experiências de intimidade nos chega, unicamente, através da sexualidade, ela não é "fazer amor". Transforma-se, aos poucos, em "fazer sexo".

 

Se "fazer sexo" for aquilo a que muitos de nós acabamos por chegar, o amor adulto - que todos ansiamos - transforma-se, quando muito, numa amizade; colorida. "Sempre não estamos sozinhos", pode-se pensar. Mas se formos "escorregando" para aí, talvez a maioria de nós se sinta acompanhada e mal-amada, que é estar sozinho e junto, ou ser íntimo e estranho, ao mesmo tempo. Se formos por aí, as nossas tentativas "premium" de amor passarão, com o tempo, a resumir-se às nossas experiências de filhos, ou serão vividas quando somos ou mães ou pais. Mesmo quando, no amor adulto, muitos repetimos: "Amo-te!", por exemplo. Mas a forma como nos damos ao amor, a forma como nos sentimos sentidos pelo "outro", e somos pensados, falados e cuidados por ele fica a "centenas de quilómetros" do amor que se experimenta quando somos filhos ou quando somos pais. E isso é trágico.

 

Será que, de todas as vezes, em que dizemos: "Amo-te!", amamos de facto ou, pelo contrário, nos limitamos a dizer aquilo que se convencionou que sejamos capazes de dizer, mesmo que isso não seja verdade? A mim, parece-me que, em muitos momentos da nossa vida, quando dizemos "Amo-te" somos mais "produtos normalizados" do que pode parecer. Dizemos "Amo-te" sem exclamação e com dificuldade não só porque somos, todos, meio atabalhoados com as palavras; é verdade que somos. Mas, sobretudo, porque temos a "sensação" que essa força, que nos devia vir da alma, é só uma espécie de pequeno sopro do coração. Demasiado "ao de leve". E pouco mais. E, quando é assim, não fazemos amor. Despimo-nos por fora; mais do que por dentro. Dizemos: "Amo-te!", claro. "Mas somos só amigos. Sim ?…"

 

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publicado às 16:18


A educação positiva ...

por John Soares, em 19.11.19

rr.jpgSerá "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais?

 

Há ideias simples que representam sínteses inteligentes de um conjunto de princípios da psicologia e que, muito depressa, se transformam em termos que ganham tracção na opinião pública e se repetem, repetem e repetem. Exemplo disso serão, a "inteligência emocional" ou a "educação positiva". Por mais que nem sempre essas ideias sejam utilizadas com a robustez e fundamentação que o bom senso exigiria, há quem, a propósito delas, fale de "estudos científicos" e lhes junte algumas pitadas avulsas de "neurociências" e, de repente, temos pessoas das mais diversas profissões a fazer "couching parental". Isto é , tudo aquilo que não ousamos fazer a propósito da medicina, da engenharia ou do direito. Com um risco (grande) desse voluntarismo levar alguns pais ao engano.
 

Uma ideia assim estruturada duma "educação positiva" pretende colocar-se como alternativa a uma "educação repressiva", que seria severa e ancorada na obediência. Ao contrário da "educação repressiva", a "educação positiva" tomaria em consideração a empatia e o respeito pelas emoções das crianças.

Foquemo-nos na empatia. E na ideia de, para não interferirem negativamente no equilíbrio entre desenvolvimento mental e equilíbrio nervoso, os pais "terem de ser" empáticos. Ora, ninguém é empático porque tenha ser empático. Ninguém é empático num contexto de "faz de conta". E não é por uma pessoa reivindicar a sua empatia que é empático. [Aliás, empatia, vinculação e tantos outros termos da psicologia, por mais que sejam um património de todos, mereciam ser compreendidos com outro rigor por parte de quem os reclama para se evitarem muitos equívocos.] Por outras palavras: para muitos pais, ser-se empático é entendido como condescender, não culpabilizar as crianças como sinónimo de ser-se justo, respeitar as emoções delas e persuadi-las a não expressaram algumas delas, e negociar com os filhos (por tudo e por nada) como a alternativa "positiva" a repreendê-las ou a ordenar-lhes o que os pais muito bem entendam que será protector para elas.

Sejamos prudentes: eu acho que muitas destas receitas "positivas", imaginadas para se retirar o medo às crianças, sempre que são manuseadas de forma precipitada, se tornam excelentes para trazer medo e insegurança à espontaneidade dos pais. Como se, a determinada altura, a empatia fosse uma espécie de "dieta parental", que - independentemente de não ser muito claro se os pais passam a escutar, de forma genuína, os filhos ou se dão atenção àquilo que eles consideram "politicamente correcto" - resulta sempre. Na verdade, muitas destas "receitas positivas" têm sido responsáveis por crianças inseguras, agitadas, com falta de regras, desafiadoras (e, por vezes, insolentes). E muito "cheias de si"; em vez de serem saudavelmente seguras. Por carência de boa educação.
Para mais, parece-me a mim, que continuamos, perigosamente, a confundir autoritarismo e autoridade, como se fossem sinónimos. A autoridade dos pais é tão opressiva para as crianças como o direito para a democracia. Isto é, as crianças precisam da autoridade dos pais, não tanto porque nasçam para serem subjugadas por eles, mas porque, para elas, a autoridade dos pais é sinónimo de bondade, de sabedoria e de sentido de justiça. Logo, negociar por sistema é exercer a autoridade num registo medroso. Que, em vez de as ajudar a crescer de forma saudável (com nãos, com advertências e com alguns episódios mais "imperativos" dos pais, sempre que eles entendem, de forma intuitiva, que os tenham de assumir), parece cultivar uma ideia de um presumível respeito pelas crianças que, no fim de contas, os leva a lidar, muitas vezes, com elas como se fossem "peças de porcelana". Em resumo, é estranho que o respeito pela infância pareça levar muitos pais a sentirem-se tolhidos por tantas "receitas" e a demitirem-se, mais do que seria sensato que o fizessem, de ser pais. Tudo ao contrário ao contrário daquilo que o respeito pela infância merecia.

 

Tenhamos, então, a ponderação de poupar os pais a meias-verdades que os levam ao equívoco. As crianças ganham se os pais as sentirem, sim. Ganham se eles, ao mesmo tempo que se recordam das suas infâncias, forem capazes de as imaginar; sem dúvida. E ganham se eles não as culpabilizarem, claro. Mas ganham, também, se, sempre que for necessário, as repreendam. Se exigirem aquilo que, em bom senso, entendam que não só não é negociável como, sobretudo, as protege. E ganham, também, se eles assumirem que o colo não as estraga. Mas que colo sem nãos é um alimento sem sal. E, sim, ganham se compreenderem as emoções dos filhos sem que isso suponha que deixem de compreender as suas. E que compreender as emoções não é domesticá-las; é entender os motivos pelos quais elas são como são. E actuar sobre elas. Se for o caso.

Por isso mesmo, tenho medo que muitas destas "receitas positivas", em nome da empatia, reprimam o "instinto maternal" e o "sexto sentido" dos pais. Que são termos de senso comum que dão a entender que somos pais em função de muitos sinais que o nosso "equipamento de base" é capaz de intuir. Que não perdemos nada se a isso juntarmos a nossa experiência de filhos e os exemplos dos nossos pais. E se, para mais, escutarmos quem, de forma fundamentada, nos traga contraditório a tudo aquilo que supúnhamos saber como pais. Sem que com isso nos tornemos tecnocratas em parentalidade, que é aquilo que os pais não podem ser. Sem que se ponha no mesmo cesto pessoas tecnicamente experimentadas, pessoas voluntariosas sem formação e, já agora, alguns blogs que, tudo junto, confundem os pais e que lhes tiram espontaneidade e autenticidade. E que lhes trazem muito medo e culpabilidade de se deixarem ir pela sua intuição. E que os põem a reproduzir conceitos que, parecendo slogans, não lhes trazem os recursos de que eles precisariam para serem melhores pais. Sempre com a salvaguarda de que reproduzir não é escolher, condescender não é entender e aceitar não é compreender.
Afinal, será "pela positiva" que os pais se tornam melhores pais? Se for de forma inconsistente, não. E será que a infância dos filhos ganha com isso? Receio que não.

 

Por : Eduardo Sá

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publicado às 15:57


As crianças não aceitam nãos ...

por John Soares, em 19.11.19

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Como se educa sem "nãos"?

 

"O meu filho não aceita um não!" é uma expressão muito comum entre os pais. Na maior parte das vezes, ouço-a como um lamento. Como se os pais me quisessem dizer que os seus filhos deveriam ser mais cooperantes do que aquilo que são na forma como deviam parar, quase sem protestarem, diante dos nãos dos pais. Ora, um não é sempre uma circunstância de conflito entre duas pessoas - assumida por uma delas - que "chocam de frente" quando cada um dos seus dois sins não coincidem. Um não é uma reacção a um dado comportamento de um filho que magoa os pais. Magoa aquilo que eles entendem que não é admissível no seu comportamento. Ou magoa-os, directamente, no modo como eles se sentem desafiados ou "agredidos" por ele. Até aqui, tudo saudável, portanto.

 

O que se torna estranha é esta ideia que as crianças aprendem os nãos sem "dor". Como se elas não precisassem de se experimentar, de se "esticar" ou de arriscar para, depois, conciliarem os seus ímpetos, movidos pela curiosidade, com aquilo que os pais entendem que as prejudica ou que as expõe a perigos. "Aceitar um não" não significa que uma criança se concilie, cordialmente, com aquilo que os pais entendem como inegociável. Mas supõe que, por tudo aquilo que eles lhe dão, ela, mesmo vencida e de mau humor, percebe que não há forma de levar "a sua" por diante. Ou seja, em muitos momentos, os nãos aceitam-se por medo. Porque uma criança reconhece que não há forma de desafiar mais os pais sem que eles, a seguir, se zanguem muito.

 

Por outras palavras, a dúvida que leva a que os pais se perguntem "Mas será medo ou respeito?" deve ser respondida com: é respeito, claro, em consequência do sentido de justiça, da sabedoria e da bondade que as crianças reconhecem aos pais; e é medo, obviamente, sempre que elas compreendem que ir para lá daquilo que os pais entendem que as protege merece um grande "sinal vermelho". Isto é, terem um bocadinho de medo da reacção dos pais leva a que elas matizem astúcia, garra e determinação com o "faço bem ou faço mal?" que as torna sensatas. Terem, em circunstâncias-limite, um bocadinho de medo dos pais é, pois, um factor de crescimento.

 

Ora, o que parece estranho é que os pais, para fugirem de impor as regras, sempre que as entendem impôr, suscitando algum medo se for preciso, se tornem medricas. Dizem não sem alma e com medo. E parece que estão sempre a pedir desculpa por terem de ser pais. Como se os seus nãos fossem uma ameaça para serem amados. Ou como se sentissem com o dever de seduzir os seus filhos para as regras mais do que as devessem exigir. Como podem os pais educar sem dizer não? Ou como podem ser pais amáveis se aquilo que parecem fazer passa, sobretudo, por lhes agradar? Não podem!

 

Chega, portanto, isto dos pais esperarem que os filhos ponham "gosto" em tudo aquilo que eles fazem. Chega de imaginarem que se aprende a ser pais numa versão de "seguidores" de filhos. E chega de querer as crianças como "influenciadoras" de pais. Elas aceitam os pais sempre que eles são pais. E não os aceitam sempre que eles aguardam pela sua aceitação para serem tão pais como elas necessitam que eles sejam.

 

 

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publicado às 15:35


Educar sem berrar ...

por John Soares, em 19.11.19

pão por deus.jpgDiz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia.
Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons

 

Surgem, de vez em quando, livros, programas de treino e "tendências do momento" acerca da imensa vantagem dos pais perderem alguns exageros que todos aqueles que são bondosos e dedicados sempre cometem quando gritam, desabafam ou reclamam, por exemplo. Fala-se do modo como pais que gritam fazem mal às crianças. E dá-se, ainda, a entender que os gritos e o exercício da autoridade parecem não ter muito a ver entre si, a ponto de haver quem afirme que será por isso que muitas crianças, à medida que crescem, se transformam em "pequenos ditadores". Ora, eu compreendo a importância duma ajuda técnica dirigida a todos os pais. Mas receio que, muitas vezes, o tom com que ela lhes é dedicada seja um bocadinho áspero (ou, mesmo, repreensivo), parecendo dar a entender que os pais devam ser bucólicos e serenos, didácticos na forma como apresentam as suas condições educativas, e negociadores (hábeis!) quando se trata de trazerem à razão os seus pequenos "príncipes". Reconheço que, por vezes, as "pestinhas", os acessos de "mau feito", o acordar "mal disposto" ou o "segurem-me que eu estou em fúria" de muitas crianças (saudáveis!) parece não entrar tanto como devia nestas "fórmulas" educativas. O que faz com que muitos pais "comprem" essas "receitas de sucesso" e, quais produtos descartáveis, acabem no tradicional "eu já tentei tudo!" que, não se tratasse dos seus filhos, talvez quisesse dizer: "tirem-me daqui!" Ou que reconheçam que os seus "bijous" os "levam ao limite". Ou que façam uso de qualquer outro desabafo que anteceda uma tremenda rendição.

 

Mas serão as crianças tão complexas na forma como se agitam, se irritam ou se enfurecem que mereçam programas educativos ou de treino que dêem aos pais "competências" para lhes devolver a auto-estima ou para os tornar "mais focados" ou "mais motivados" para a "tarefa" de educar? Eu acho que não! Talvez por tudo isso seja importante brincarmos com este lado um bocadinho alarmado com que muitos "especialistas" parecem querer colocar todos os pais num alerta do género: "elas vêm aí!", que faz com que as crianças pareçam requerer um jeitinho quase laboratorial de lhes darmos colo, regras e autonomia ao mesmo tempo que se mantêm vivas e se vão tornando bem educadas.

 

Em primeiro lugar, educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar  não é bem educar. É querer que os pais não ponham alma em tudo aquilo que dão. O que, valha a verdade, talvez pretenda transformar a paixão que colocam em cada gesto que dedicam aos filhos numa pilhéria de movimentos "robotizados" que os tornem insossos e enfadonhos. E isso é mau! Aliás, se educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar fosse mesmo para valer seria motivo para se dizer: "Mães de todo o universo, dêem um pulo de contentamento, se fazem o favor: estão proibidas de educar!". O que seria uma perda trágica e irreparável para todas as crianças.

 

O que eu não entendo mesmo é que vá surgindo a ideia de que os pais ou conversam ou gritam. Pais que conversam não gritam, claro. E pais que gritam estão muito longe de saber conversar - com persuasão e "cheias de maneiras" - com as crianças. O que não é verdade! Quem são os pais que mais gritam? Os que mais conversam! E porquê? Porque as conversas em que se dedicam a explicar, minuciosamente, boas maneiras acabam sempre por ser sentidas pelas crianças como um "desculpa qualquer coisinha", mais ou menos medroso, o que faz com que elas os "estiquem" sempre um pouco mais, acabando esse braço de ferro numa cena "à italiana". Como parece que não convém...

 

 A seguir, diz-se por aí que os berros não são amigos da pedagogia. Mas é que não são mesmo! Por isso é que são bons. E porquê? Porque aquilo a que muitos chamam pedagogia parece não tolerar o erro, as asneiras e os remorsos com que todos nós vamos crescendo como pais. Aliás, qual é a principal função dos berros: educar?... Claro que não! É serem amigos do desabafo. Aliviam, portanto. E arejam a alma! Para que, depois de se reconsiderar, haja espaço para a clarividência e para a bondade.

 

Depois, afirma-se que quem berra, reclama e protesta dá maus exemplos. É verdade que haverá circunstâncias em que as "figuras tristes" não são um "cartão de visita" para qualquer "faça você mesmo" ao alcance de todas as crianças. Mas são um bom exemplo! Porque - imaginando eu que nada disto seja "a regra" mas que se trate de breves repentes de ebulição só ao alcance dos bons pais - as asneiras dos pais demonstram aos filhos que a sabedoria não significa prevenir os erros mas aprender com eles.

 

Quase a rematar, diz-se que os pais só deviam ralhar quando detectassem alguma maldade nas crianças. Ou que deviam respirar fundo... antes de abrirem a boca. E isso seria mesmo mau! Porque, a ser assim, as boas mães rebentariam quase todos os dias. E nunca chegaríamos a desabafos como "qualquer dia tiro férias de mãe e vocês vão ver!". Que é dos patrimónios imateriais mais preciosos da Humanidade!

 

Finalmente, diz-se que os berros trazem (algum) medo às relações das crianças com os os seus pais. E volta a ser verdade. Porque quando os pais definem perigos e interditos, ao fazerem com que as crianças estremeçam com eles e se intimidem um bocadinho, estão a dizer-lhes, por outras palavras: "se tiver que te provocar alguma dor para te poupar dores muito maiores, eu não hesito!". Ora, haver situações em que as crianças, quase por antecipação, conseguem (só de a imaginarem) ter medo da reacção da mãe ou do pai faz com que parem, enquanto é tempo. Ou que se munam de talentos para iludir a competência que todos os pais têm para adivinhar as suas asneiras - antes, ainda, delas serem pensadas - o que, a acontecer, não é para todos! Só mesmo para os filhos de quem, de vez em quando, berra, reclama e protesta...

 

Para rematar, dá-se a entender que os pais, depois de berros, protestos e reclamações ficam "afanadotes". E, seja pelo cansaço de tão pouco edificantes "perfomances", seja pelo exagero com que elas vêm equipadas, a seguir, se tornam "algodão doce". E dizem "sim!" a quase tudo. E é verdade. Mas dizerem "sim" a quase tudo não significa que se tenham tornado amigos da "totozice". Mas que tenham prescindido da sua quota-parte da birra e que, em função disso, casem melhor a autoridade com a bondade.

 

Educar sem berrar, sem rezingar e sem resmungar  não será "a Graça de Deus". Reconheço! Por mais que ande por aí quem confunda bullying com educação. Os pequenos destemperos dos bons pais são bondade e educação. Os registos rígidos a que alguns se obrigam (talvez porque tenham medo de, ao primeiro espirro, perderem a cabeça) são mais bullying do que parece. Porque é que os pais querem muito não gritar, sempre que educam? Porque eles lá sabem do que é que são capazes quando amam. Mas não fossem eles capazes de berrar, de rezingar e de resmungar  que podiam ser bons pais, até. Mas faltaria uma pitadinha de alma, um quanto-baste de paixão. E nunca seriam "Os Nossos Pais"!

 

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publicado às 15:23

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