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As mães nunca morrem ...

por John Soares, em 06.01.20

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Lidar com a ausência, com a dor dilacerante proveniente da falta, com o vazio que resta e que não pode ser preenchido por nada, é difícil e assustador. Mas então, num dia inesperado, talvez a gente entenda que as coisas não acabam, elas se transformam.


Há uma frase linda, atribuída a Marcos Luedy, que diz: “As mães nunca morrem.
Elas entardecem, tingem de nuvens os cabelos e viram pôr do sol”.

 

Estive refletindo sobre essa frase recentemente, depois que um amigo perdeu a mãe repentinamente. É difícil consolar alguém numa situação dessas, ainda mais se nunca passamos por isso. Mas imagino que, com o tempo, essa falta se transforme em algo mais suave e suportável, semelhante à descoberta de que as mães não morrem, elas continuam vivas dentro de nós, nos gestos, nas características que herdamos e principalmente no olhar que é nosso, mas que a partir desse momento também carregará um tanto da percepção e sensibilidade delas.

 

Lidar com a ausência, com a dor dilacerante proveniente da falta, com o vazio que resta e que não pode ser preenchido por nada, é difícil e assustador. Mas então, num dia inesperado, talvez a gente entenda que as coisas não acabam, elas se transformam. E com as mães não poderia ser diferente. Mais que importantes, elas são matrizes do tecido de que somos feitos. Mais que necessárias, são um eco dentro de nós nos lembrando o caminho a seguir. E mesmo aquelas que não geraram, emprestaram a seus filhos características que ajudaram a construir quem eles se tornaram. Isso não se perde quando elas partem. Sempre residirá naquele emaranhado de histórias, manias, gestos e percepções, se somando às experiências vividas e adquiridas, mas permanecendo e resistindo como memória viva e indestrutível.

 

Minha mãe tem o belíssimo costume de fazer livros de memórias para seus netos. Em cada página, um pedacinho de si mesma e de seu afeto por eles e por nós, seus filhos. Esses cadernos decorados serão herdados pelas nossas crianças e perpetuarão a memória de minha mãe no futuro. Porém, muito além da garantia dos cadernos, ela permanecerá viva pela forma como toca cada um de nós: com amor, alegria, generosidade e compreensão. Enquanto nós vivermos, essas sensações jamais serão perdidas.

 

As mães nunca morrem. Elas se afastam, e a neblina das primeiras horas encobre o que antes era visível e palpável. Dentro de nós, antigos sons chamando para o jantar ou contando histórias antes de dormir nos dão a certeza de que, mesmo que se diga que tudo passa, elas não passarão. O que acontece é que elas se transformam. Vão entardecendo e sendo encobertas, mas caminharão para sempre junto de nós, na alma e no coração.

 

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publicado às 19:19

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O sentimento de conexão acontece quando o outro torna eterno aquilo que eu também eternizo. Quando uma simples conversa de bar, uma mensagem descomplicada entre duas pessoas, uma música dedicada a alguém, um trecho de livro, um elogio inesperado ou um abraço carregado de afeto permanecem além do tempo, porque se consolidaram como memórias. Porque acessaram o que havia de sagrado e eterno dentro da gente, e serão como digitais, para sempre presentes...


Dia desses recebi um vídeo lindo e tocante pelo WhatsApp e tive que salvar no celular. Nele, havia uma reflexão belíssima acerca do amor e seu poder de transformação. Sobre como a falta de amor torna as coisas insignificantes; e sobre como o transbordamento de amor torna tudo extremamente perfeito.

 

No texto, atribuído a Arto Tudjarian, dizia-se: “Dedicação, sem amor, é escravidão. Trabalho, sem amor, vira obrigação. Filhos, sem amor, se tornam um fardo. Amigos, sem amor, se tornam colegas. Doação, sem amor, se torna hipocrisia. Beleza, sem amor, se torna vazio. Caridade, sem amor, se torna falsidade. Família, sem amor, se torna parente. Mãe, sem amor, se torna apenas mulher. Pai, sem amor, se torna apenas homem. Carinho, sem amor, se torna interesse. Uma pessoa, sem amor, se torna amarga. No entanto… Fatos, com amor, se tornam lembranças. O choro, com amor, se tornará um abraço. Um olhar, com amor, se tornará compreendimento. A estrada, com amor, se tornará o caminho. Um trabalho, com amor, se tornará um prazer. Filhos, com amor, se tornarão dádivas. Amigos, com amor, se tornarão irmãos. Carinho, com amor, se tornará sentimento. Caridade, com amor, se tornará realização. Um casal, com amor, se tornará cúmplice. Respeito, com amor, se tornará admiração. Preocupação, com amor, se torna cuidado. O dia a dia, com amor, se tornará felicidade…” 

Enquanto escrevo esse texto, uma tia, que com amor virou mãe, enfrenta sua última escalada. Não sabemos quanto tempo resta, mas fico aqui refletindo sobre as marcas que ela deixou. No quanto os fatos que vivi ao lado dela se tornaram lembranças. No quanto seu olhar se tornou compreendimento. No quanto ela conseguiu deixar suas digitais na minha vida e em outras vidas que tocou.

 

Memórias… Quando falo sobre memórias, é sobre esse sopro de amor que damos a todas as vidas e coisas que falo. Sobre conseguirmos transformar simples fatos em lembranças, depois deles terem sido tocados por nosso afeto e sensibilidade. Um presente é só um objeto, mas se atribuímos sentimento e significado ao objeto, ele se torna uma memória, um souvenir que traz de volta alguém ou algum lugar. Uma música é só uma música, mas pode se tornar referência de uma época, de alguém ou de um estado de espírito no instante em que seu significado ultrapassa o arranjo das notas e traz junto as emoções que essa melodia desperta.

 

O sentimento de conexão acontece quando o outro torna eterno aquilo que eu também eternizo. Quando uma simples conversa de bar, uma mensagem descomplicada entre duas pessoas, uma música dedicada a alguém, um trecho de livro, um elogio inesperado ou um abraço carregado de afeto permanecem além do tempo, porque se consolidaram como memórias. Porque acessaram o que havia de sagrado e eterno dentro da gente, e serão como digitais, para sempre presentes…

 

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publicado às 18:47


Esperar dói ... Desistir dói ...

por John Soares, em 06.01.20

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Esperar dói. Desistir dói. Mas às vezes
é preciso decidir entre os dois para parar de doer.

Nem tudo o que a gente quer, é para a gente. E aceitar isso, e lidar com isso, dói, machuca, deixa marcas profundas. Porém, quanto antes você conseguir discernir o que é real e possível do que é fantasia e ilusão, mais cedo você perceberá que a felicidade também é uma decisão, e que a vida acontece para aqueles que escolhem recomeçar quando tudo parece desabar.

 

O que a vida quer de nós é coragem. E é preciso muita coragem para insistir e, igualmente, muita coragem para desistir. Porém, acima de tudo, é preciso sabedoria para discernir qual é o momento de um e de outro.

 

Desistir é uma decisão, e pode ser nosso maior ato de coragem. Ninguém enxergará as batalhas que você travou para aceitar que o tempo das esperas acabou; para substituir o sentido que aquela esperança lhe dava por uma forma de vida inteiramente nova.

 

Nem sempre a gente enxerga que é hora de desistir. Que não há mais o que esperar daquilo que a gente tanto desejou. Que o tempo de insistir e nos dedicar ao que queríamos chegou ao fim. Que apesar de nosso desejo e de nossos esforços, não há mais o que fazer. É doloroso aceitar que nem sempre nossas vontades são aquilo que Deus reserva para nós, e que, simplesmente, temos que deixar ir.

 

É preciso sabedoria para escolher bem as batalhas que iremos travar. Enquanto não aprendemos isso, enquanto escolhemos batalhas que já estão perdidas e gastamos toda nossa energia forçando chaves em fechaduras erradas, sofremos.

 

Enquanto permanecemos com esperanças num lugar onde não há mais o que esperar, nos atormentamos. Enquanto insistimos em algo que nunca irá se modificar, padecemos. Enquanto teimamos em acreditar que teremos resultados favoráveis ao forçar um sapato que não nos cabe, sofremos. É preciso paz para ouvir a voz da intuição e entender que desistir pode ser um grande ato de amor a nós mesmos.

 

É preciso não confundir desistência com derrota. Desistir é uma decisão, um trato com uma nova forma de vida, e pode significar uma nova chance, um recomeço. Assusta porque nos obriga a renunciar àquilo que, mesmo sendo ruim, muitas vezes dava sentido à nossa existência.

 

O desconhecido assusta. Nos apegamos ao que conhecemos bem, mesmo que seja um lugar de derrota e dor. Por isso sofremos ao soltar o último fio que nos liga ao nosso mundo, à realidade que até então nos definia. Porém, soltar essa fagulha de esperança, embora seja assustador e sofrido, algumas vezes é necessário.

 

Não desejo que você mate seus sonhos, mas que tenha sabedoria para escolher onde deve permanecer. Que não se iluda com aquilo que só aconteceu na sua imaginação, nem insista em situações que só se concretizaram em seus devaneios. Nem tudo o que a gente quer, é para a gente. E aceitar isso, e lidar com isso, dói, machuca, deixa marcas profundas. Porém, quanto antes você conseguir discernir o que é real e possível do que é fantasia e ilusão, mais cedo você perceberá que a felicidade também é uma decisão, e que a vida acontece para aqueles que escolhem recomeçar quando tudo parece desabar.

 

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publicado às 17:18


Não desista de ser quem você é ...

por John Soares, em 06.01.20

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Não desista de ser quem você é.
Um dia você será valorizado por ser exatamente assim.

Algumas pessoas vão continuar indo embora, independente do que você faz ou representa para elas. Então aprende uma coisa: O medo de ser abandonado ou criticado não pode ser o modulador de suas ações. Você não pode modificar sua essência movido pelo medo de perder alguém. Você não pode condicionar seu jeito de ser à ameaça de ser criticado ou abandonado.

 

 

Muita gente não sabe, mas a TopModel Gisele Bündchen foi rejeitada como modelo 42 vezes no início da carreira. “Lembro que me diziam que meu nariz era muito grande ou que meus olhos eram muito pequenos, que eu nunca poderia aparecer na capa de uma revista”, contou a modelo à revista People. O desfecho dessa história, porém, todos conhecem: Em 2015, ano em que se aposentou das passarelas, Gisele Bündchen ganhou 44 milhões de dólares (aproximadamente 152 milhões de reais), e continua brilhando, sem nunca ter precisado se submeter à uma plástica do nariz ou desistir de seu sonho.

 

Muitas vezes condicionamos nossa autoestima e amor-próprio à opinião que os outros têm a nosso respeito, e vamos do luxo ao lixo em segundos, confiando muito mais no olhar de reconhecimento ou reprovação que recebemos do lado de fora do que em nossa própria habilidade de nos apreciar e valorizar.

 

As pessoas vão continuar criticando, dizendo que você não fica bem com essa roupa ou corte de cabelo, que você deveria agir assim ou assado, que seria de bom tom você escolher melhor o filtro das fotos no Instagram. Do mesmo modo, algumas pessoas vão continuar indo embora, independente do que você faz ou representa para elas. Então aprende uma coisa: O medo de ser abandonado ou criticado não pode ser o modulador de suas ações. Você não pode modificar sua essência movido pelo medo de perder alguém. Você não pode condicionar seu jeito de ser à ameaça de ser criticado ou abandonado.

 

Nem sempre é fácil bancar o desejo de ser quem a gente é. É preciso muita coragem, maturidade, autoconfiança e amor-próprio para nos assumirmos por completo, correndo o risco de quebrar algumas promessas e desagradar a alguns, mas certamente sustentando nosso desejo de autenticidade, coerência e autorespeito.

 

O que é defeito para uns, pode se tornar o atrativo principal para outros. O que alguns rejeitam, pode ser a “Pedra Angular” para tantos. Em um momento ou outro da vida teremos que lidar com o desprezo, a crítica e a rejeição, mas isso não anula nosso valor. Isso só nos lapida e ensina que ninguém é unanimidade ou cabe em todos os lugares.

 

Nem todo mundo vai te dar valor. Nem todo mundo vai ser recíproco com você. Nem todo mundo vai aprovar seu guarda roupa sisudo ou muito extravagante. Nem todo mundo vai sorrir quando você chegar. Porém, nem por isso você deve desistir de ser quem é. Nem por isso você precisa abrir mão da sua espontaneidade e originalidade. Não fuja de você. Não abandone o seu jeito. Não sacrifique sua essência pelo medo de não ser aprovado.

 

Não se ofenda por tão pouco, nem se torture pela necessidade de reconhecimento e validação. Nem sempre a gente é aceito, e está tudo bem. Correr atrás de aprovação é um processo desgastante, desastroso e muito doloroso; e nos condena a viver sob o peso do julgamento alheio, sem leveza ou absolvição.

 

Um dia alguém vai querer ficar. Um dia alguém vai enxergar em você aquelas qualidades que nem todos enxergam de primeira, mas que com o tempo e alguma habilidade, transbordam com gratuidade. Mas antes disso você vai encontrar seu lugar no mundo, e a sensação de pertencimento lhe dará a certeza de que valeu a travessia, pois a insistência na felicidade nada mais é que o encontro com a autenticidade.

 

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publicado às 15:57


Relacionamento tipo porta giratória

por John Soares, em 06.01.20

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Espero que você não ignore o quanto esse vai e vem emocional te faz mal, e aprenda de uma vez por todas
que quem te tem em consideração não faz do seu coração um parque de diversão.

 

 

A gente ensina aos outros como quer ser amado. Talvez de modo inconsciente, a gente mostra a todo mundo como deseja ser tratado, e nem sempre demonstramos que queremos ser bem amados, bem cuidados, bem olhados, bem decifrados, bem respeitados.

 

Muitas vezes preferimos requentar o café frio de anteontem a não beber café nenhum e, de modo distorcido, ensinamos aos outros que não merecemos um café quentinho e cheiroso, recém passado e com sabor marcante. Talvez devêssemos escolher não ter nada a ter as piores porções.

 

E é assim também que aceitamos um relacionamento tipo porta giratória, e permitimos que nosso coração abrace e seja abandonado tantas vezes quanto o outro quiser, pois preferimos ter esse alguém entrando e saindo de nossas vidas a não ter esse alguém de jeito nenhum.

 

Nem sempre iremos nos machucar num relacionamento assim. Quando é conveniente para os dois, quando ninguém está criando expectativas ou desejando algo mais, os pratos da balança se equilibram e ninguém se machuca. Porém, tudo muda quando você faz um investimento emocional na relação e o outro não. Quando você aposta num banquete e recebe somente migalhas.

 

Você jamais terá um banquete se fica farto com as migalhas. Jamais será levado a sério se romantiza joguinhos e justifica vácuos e perdidos. Jamais será convidado pra um encontro olho no olho se acredita que o like na foto antiga é a melhor alternativa.

 

Mas antes de sair fazendo cobranças e exigências, estabelecendo regras e impondo ultimatos, experimente simplesmente sair da porta giratória e veja o que acontece. Ao invés de esperar uma mudança de atitude do outro, mude você. Seu coração não precisa viver em compasso de espera, dando chances e mais chances a alguém que simplesmente não se importa. Se o outro se importasse, a porta não giraria.

 

Espero que você nunca se esqueça que ofereceu chances e elas foram desperdiçadas, todas elas. Espero que você não se distraia das sensações ruins que a porta giratória te causou, e não caia na tentação de duvidar das cicatrizes que ela deixou. Espero que você não ignore o quanto esse vai e vem emocional te faz mal, e aprenda de uma vez por todas que quem te tem em consideração não faz do seu coração um parque de diversão.

 

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publicado às 15:24

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Somente fugirá do amor quem muito amou e se despedaçou. Somente se blindará contra a vulnerabilidade quem muito se expôs e sentiu-se desarmado. Somente desistirá de aprender quem teve que lutar para esquecer. Somente negará o que sente quem um dia foi inteiro e se fragmentou.

 

Há algum tempo, uma amiga de longa data me contou que a música que tinha maior significado para ela atualmente era “Doesn’t remind me”, da banda Audioslave. Curioso, fui conferir a letra que dizia algo como: “Gosto de mariposas e conversas de rádio, pois isso não me lembra nada”. E seguia, listando diversas coisas aleatórias que o autor da canção gostava (como martelar pregos e roupas coloridas ao sol) pelo único motivo de que essas coisas não o faziam se lembrar de nada. Achei meio sem sentido, até que, no refrão, veio a explicação: “As coisas que amei, as coisas que perdi / As coisas que julguei sagradas e depois abandonei / Não vou mais mentir, pode apostar / Não quero aprender coisas que precisarei esquecer…”

 

Eu sabia das perdas recentes de minha amiga, e, por isso, naquele momento compreendi. Ela precisava se proteger, se blindar, se sentir segura de alguma forma. Quando já fomos machucados repetidas vezes, aprendemos a adotar mecanismos de defesa. Nem sempre esses mecanismos são ideais, mas nos ajudam a enfrentar o medo e encontrar algum alívio.

 

Como você sobrevive depois de um trauma? De que maneira você decide seguir depois que tudo desmorona? Que mudanças ocorrem silenciosamente, sem que ninguém perceba, dentro de você? Você se amortece como minha amiga, adquirindo gosto por dirigir de ré na neblina se isso não lhe lembrar nada, fugindo das lembranças mais significativas da sua vida já que elas lhe causam dor, ou arrisca mais um pouco? Você foge para o Alaska imaginando que lá não terá conflitos ou enfrenta a vida e suas imperfeições de frente? Você tenta superar a dor do abandono sendo aquele que abandona ou experimenta a vida à flor da pele com toda exposição e vulnerabilidade que ela oferece?

 

Assim como as artimanhas citadas, a autossabotagem é um mecanismo de defesa, e aqueles que têm medo do amor se sentirão seduzidos a agir como aquele que abandona ao invés daquele que é abandonado. O medo do desamparo é tão grande que é preferível ser aquele que renuncia a ser aquele que é desamparado.

 

Sabe quando você era criança e fazia aquela fileira gigantesca de dominós, mas não ia dormir antes de empurrar todos eles? Ou quando empilhava cartas de baralho, e preferia derrubar tudo a correr o risco de acordar no outro dia e ver o castelo destruído? Você tinha medo de moldar sua alegria em cima de algo e depois ver esse algo desmoronar.

 

Quando você se machuca repetidas vezes por ter estado vulnerável, por ter confiado, por ter se doado, você acaba se blindando.

 

Somente fugirá do amor quem muito amou e se despedaçou. Somente se blindará contra a vulnerabilidade quem muito se expôs e sentiu-se desarmado. Somente desistirá de aprender quem teve que lutar para esquecer. Somente negará o que sente quem um dia foi inteiro e se fragmentou.

 

Clarice Lispector tem uma frase que gosto muito que diz: “Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante”. Acho que essa frase faz todo sentido à medida que vamos entendendo que nem sempre estaremos nos blindando, nem sempre estaremos nos atirando, mas precisamos aprender que viver com coragem é viver com liberdade. E só é livre quem não se encarcera, não se blinda, não se esconde. Assim, por mais que seja um risco, é preciso não ter medo de assumir o que se sente e o que se deseja, pois a gente só vai se curar quando ventilar nossas feridas mais profundas e deixar o tempo tratar…

 

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publicado às 14:46


Amor pra valer, é muito difícil ...

por John Soares, em 05.01.20

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Amor mesmo, amor pra valer, é muito difícil. Porque dá trabalho. Porque necessita de tempo. Porque requer entrega, comprometimento, formação de vínculos. Exige renúncia e significa escolher a mesma pessoa todos os dias. Se ninguém te contou, eu conto: amor é afeto, mas também decisão.

 

Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou com um amor desses de cinema, correndo de mãos dadas na chuva, tomando vinho em frente à lareira, compartilhando planos, gostos, viagens, filhos… com química, afeto, saliva, música de fundo e foto tipo Tumblr no Instagram.

 

Atire a primeira pedra quem nunca imaginou que o amor pudesse ser cem por cento encontro, romance, fogos de artifício e a solução de todas as nossas angústias, carências, dificuldades e incompletudes.

 

Atire a primeira pedra quem nunca teve pressa de amar e ser amado, de junto ao seu par ser um casalzão desses que a gente olha e sorri, de adquirir a segurança de nunca ser decepcionado ou incompreendido, de nunca conviver com a imperfeição.

 

Nos anos 80 Herbert Vianna já alertava: “A vida não é filme você não entendeu”, mas ainda assim a gente seguiu, insistindo na crença de que para amar, bastaria ter afeto. Ninguém nos contou que amor sem comprometimento não dura. Amor é afeto, mas também disposição para dar certo.

 

A verdade é que amor mesmo, amor pra valer, é muito difícil. Porque dá trabalho. Porque necessita de tempo. Porque requer entrega, comprometimento, formação de vínculos. Exige renúncia e significa escolher a mesma pessoa todos os dias. Amor mesmo, amor pra valer, é para os fortes e corajosos.

 

Se ninguém te contou, eu conto: amar dá trabalho. Construir uma relação com vínculos duradouros implica não somente em acolher o brilho no olhar e o sorriso ao acordar, mas em se comprometer igualmente com as dificuldades e noites sem dormir da relação.

Se ninguém te contou, eu conto: amar não é para preguiçosos. Pois amar é uma tarefa trabalhosa e algumas vezes cansativa. Pode exigir algumas renúncias e adiamento de vontades e planos. Amar não é para individualistas, egoístas e comodistas. Amar desassossega.

 

Amar não é simplesmente ter o outro à nossa disposição, mas também priorizar o outro em nossa vida. Não é somente ter alguém interessado em nós, em nossas qualidades e conquistas, mas também nos interessarmos verdadeiramente pela vida do outro, saindo do nosso mundinho, aceitando as diferenças, acolhendo a discordância como parte de nosso universo também.

 

Amar é uma escolha, e às vezes temos que colocar essa escolha acima de todos as outras.

 

Vivemos uma época em que o maior patrimônio é o tempo. Porém, muitas vezes desperdiçamos esse bem precioso e declaramos que não temos tempo suficiente para investir construindo vínculos. Vivemos o paradoxo de desejar um amor desses de cinema e não querer empregar nossa energia na construção dessa relação. Almejamos ter alguém com quem compartilhar nossas alegrias e angústias, mas não estamos dispostos a priorizar esse amor. Aspiramos por alguém que goste de nós verdadeiramente, mas nunca dedicamos um tempo para conhecer realmente o outro.

 

Numa sociedade rápida como a nossa, nem sempre estamos dispostos a doar nosso tempo construindo laços com alguém. A andar lado a lado não somente quando todas as peças se encaixam, mas também quando faltam respostas e significado. A permanecer não somente quando há beleza, mas também quando é preciso suportar a aridez e a severidade.

 

Amor é afeto, mas também decisão. Investimento. Construção. Empenho. Disposição. Interesse genuíno no outro. Prioridade. Vínculo. Vontade. Escolha. Você escolhe o outro e o relacionamento todos os dias, e empenha-se diariamente para fazer dar certo. E ao final, descobre que conseguiu ter um amor desses de cinema, mas não foi de graça. E isso é igualmente bonito, pois a vida também acontece nos bastidores, quando as luzes se acendem e a plateia se despede.

 

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publicado às 04:35


Para viajar, basta existir ...

por John Soares, em 05.01.20

Viajar.jpgUma pessoa precisa viajar.
Pelo menos uma vez na vida,
deve partir pelo mundo ou para dentro de si.

Quando viajamos, nosso olhar atribui significado ao que admiramos,
nossa alma esbanja vontade de se encantar, e experimentamos a liberdade 
de ser passarinho sem receio de voar.

Adoro a frase de Fernando Pessoa que diz: “Para viajar, basta existir. A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”.

 

Acredito que é bem por aí. Qualquer viagem – seja para o Polo Norte, para o quarteirão vizinho à nossa casa ou para uma busca interior em que viajamos para dentro de nós mesmos – irá nos arrebatar em maior ou menor grau dependendo muito mais do nosso estado de espírito do que das condições externas.

 

Só se encanta quem está vulnerável a se maravilhar. Só aprende quem deseja se aprimorar. Só se aprofunda quem não tem medo de mergulhar. Só conquista algo novo quem tem coragem de se arriscar. Só se apaixona quem deixa a espontaneidade aflorar. Só enxerga possibilidades quem baixa a guarda e deixa a alma voar.

 

A vida é o que acontece dentro da gente. É o que acontece quando abrimos aquele livro antigo e nos encontramos no último parágrafo do terceiro capítulo. É o que acontece quando tomamos um cálice de vinho e a suave embriaguez nos faz rir de uma piada sem sentido. É o que acontece quando meditamos e encontramos um lugar de paz dentro da mente. É o que acontece quando escalamos uma montanha e nos maravilhamos com o pôr do sol. É o que acontece quando sentimos um perfume conhecido e lembramos alguém. É o que acontece quando o estado de nossa alma transforma a crua realidade em ares de novidade.

 

Quando viajamos, nosso olhar atribui significado ao que admiramos, nossa alma esbanja vontade de se encantar, e experimentamos a liberdade de ser passarinho sem receio de voar.

 

Uma pessoa precisa viajar. Pelo menos uma vez na vida, deve partir pelo mundo ou para dentro de si. Só assim saberá sobre voos e retornos, saudades e encontros, sol queimando a pele e pés descalços sentindo o chão, finais e recomeços, eternidades que moram em instantes.

 

Faça as malas, dê um mergulho, acenda uma vela. Troque o tempo dos relógios pelas batidas no seu peito. Desça do salto, despeça-se das selfies, estenda a mão à falta de explicação. Faça um brinde às possibilidades, permita-se um pouco de bobagem, diminua qualquer bagagem. Sopre dentes de leão, prefira ser passarinho a ser avião, transborde oceano. Faça uma fogueira no peito, destrua mágoas, relembre cantigas de ninar. Viaje para longe ou perto, mas não desista de partir. Se permita deixar-se levar, ser um pouco rio, desaguar no mar. E ao final, retorne verso de poema, que é um pouco sonho, garoa, neblina e sol, concordando finalmente com a frase que diz: “Para viajar, basta existir…”

 

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publicado às 04:07


Conexões de pele e alma ...

por John Soares, em 05.01.20

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Conexões de pele são passageiras.
Conexões de alma duram a vida inteira.

 

Quando há conexão de almas, a gente se reconhece no olhar.
Antes mesmo das apresentações, sentimos proximidade.
E por mais que faltem explicações, sobram semelhanças e sincronicidade.
É como se o Universo conspirasse a favor, e os caminhos estivessem fadados a se cruzar.

É difícil explicar as razões que nos fazem simpatizar de cara com alguém. É difícil encontrar motivos que justifiquem a alegria espontânea que sentimos quando estamos perto dessa pessoa ou a falta absurda que ela nos faz, mesmo que a tenhamos conhecido há tão pouco tempo.

 

Mas acontece. Algumas pessoas cruzam nosso caminho e a conexão é imediata. Dizem que as almas já se conheciam e por isso não são necessárias apresentações, explicações, conclusões. A gente apenas sente, e ponto. Com elas ficamos à vontade, sentimos familiaridade, temos vontade de descalçar os sapatos, abrir uma garrafa de vinho e passar o resto do dia, da semana, do ano… falando da vida, rindo à toa e confessando segredos sem receio do choro vir à tona.

 

Quando há conexão de almas, a gente se reconhece no olhar. Antes mesmo das apresentações, sentimos proximidade. E por mais que faltem explicações, sobram semelhanças e sincronicidade. É como se o Universo conspirasse a favor, e os caminhos estivessem fadados a se cruzar.

 

Algumas coisas são inexplicáveis nessa vida, e a conexão imediata que sentimos perto de algumas pessoas é assim também. Nem sempre a pessoa é a mais bonita, mas nos atrai de maneira inexplicável e intensa. Ela sorri e você tem vontade de sorrir também; você abre a boca para falar algo, ela interrompe com aquilo que você estava prestes a dizer; você pensa nela, ela te manda uma mensagem no whatsapp; você perde o sono e descobre que na mesma noite ela sonhou com você.
 

Conexão é algo inexplicável, que faz com que você se veja refletido no outro de uma maneira que faz você gostar mais de si mesmo. Não há censura, julgamento ou condenação. Você é acolhido e aceito como é, e aquilo que parecia tão difícil ou complicado, vai ficando mais leve e fácil de carregar.

 

De vez em quando conhecemos alguém e temos a sensação de que já o conhecíamos anteriormente. O psicanalista Christian Dunker explica essa familiaridade ou “conexão de almas” dizendo que o indivíduo tem algumas lacunas, repressões ou resistências dentro de si. É como se a pessoa olhasse algo, mas não enxergasse. Ouvisse algo, mas não escutasse. Até que aparece uma outra pessoa que faz a integração. Essa pessoa entra na nossa vida reunindo traços de percepção ou traços de desejo que estavam em pendência. Assim, a sensação é de que já o conhecíamos, mas na verdade o que ocorreu foi que essa pessoa trouxe algo que nos fez entrar em contato com nossas lacunas e desaceitações, com aquilo que precisávamos lidar em algum momento ou outro da vida, e de repente tudo faz sentido.

 

Entendendo ou não de psicanálise, o fato é que gostaríamos de acreditar que seria possível passar um dia inteiro ao lado de alguém que acabamos de conhecer num trem – como no filme “Antes do Amanhecer” – e encontrar no outro o tipo de afinidade que estivemos buscando a vida toda. O filme fez tanto sucesso na década de noventa que virou uma trilogia (se não assistiram, corram para ver). A trilogia gravada entre os anos de 1995 e 2013 (com o mesmo elenco), fala desse tipo de conexão rara, que pode nascer de um encontro casual e durar uma vida inteira.

 

Acredito que isso seja possível sim. O encantamento, a simpatia gratuita e a conexão imediata que sentimos ao lado de algumas pessoas nos fazem acreditar que nem tudo tem explicação lógica, e que nossa alma tem mais mistérios do que podemos supor ou entender. Sinta-se abençoado se alguma vez conseguiu sentir. Sinta-se privilegiado se a outra pessoa sentiu o mesmo que você. Conexões de pele são passageiras. Conexões de alma duram a vida inteira.

 

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publicado às 02:56


Cada passo da sua vida ...

por John Soares, em 05.01.20

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“Cada próximo passo da sua vida vai exigir um novo você.
E algumas vezes precisamos ser quebrados para nos tornarmos  
uma nova versão de nós mesmos”.

Às vezes você precisa ser quebrado para se tornar uma versão melhor de si mesmo.
Às vezes você precisa sangrar e ficar à flor da pele para conseguir se resgatar.
Às vezes é preciso um novo você para que a vida volte a pulsar.

 

Você já parou para pensar que as experiências que a gente vive, por mais turbulentas ou dolorosas que sejam, talvez tenham acontecido para nos aproximar de quem a gente é?

 

Talvez devêssemos usar a oportunidade da dor, da desconstrução, do arrebatamento, do desmoronamento, das fraturas na alma como facilitadores do encontro com nós mesmos.

 

Joseph Campbell, em “O Poder do Mito”, diz que o que estamos procurando não é um sentido para a vida, e sim uma experiência de estar vivos.

 

Concordo com ele. Porque o que nos move, modifica ou aproxima de nosso ser mais puro e real – e talvez até desconhecido de nós mesmos por estar encoberto sob camadas e mais camadas de influências externas – são as experiências que aguçam nossos sentidos de forma mais intensa: o arrebatamento da paixão, a angústia, a dor, as turbulências, o desejo, a perda.


Dia desses assisti novamente ao filme “As Pontes de Madison”, de 1995. Mais amadurecida e com alguma bagagem, revi o filme sob uma nova perspectiva além daquela sobre adultério ou traição feminino. Pra quem não conhece, o longa conta a história de um fotógrafo da revista National Geographic incumbido de fotografar as pontes de Madison, em Iowa. Lá, ele conhece uma dona de casa cujo marido e filhos estão viajando. Os dois vivem um breve e intenso romance, com duração de quatro dias, que marca definitivamente a vida dos dois.

 

Porém, deixando de lado o fato de Francesca, personagem interpretada por Meryl Streep, ter cedido ao desejo e vivido uma relação extra conjugal, nos deparamos com uma mulher na meia idade descobrindo a si mesma. Se ouvindo. Se percebendo. Se amando. Se resgatando. Se transformando. Descobrindo seus gostos, suas preferências. Entrando em contato com sua verdade mais profunda e autorizando a si mesma deixar vir à tona quem era de fato. Uma das cenas que mais gosto é aquela em que ela está na banheira, sozinha, e pensa: “Estou agindo como alguma outra mulher, contudo, nunca fui tanto eu mesma como agora”.

 

Há uma frase do Padre Fábio de Melo que diz: “Há pessoas que nos roubam. Há pessoas que nos devolvem”. No caso da personagem, ela foi resgatada, devolvida a si mesma através da experiência da paixão. E, mesmo escolhendo não viver esse amor até o fim, foi modificada para sempre. Retornou para sua vida, para sua rotina de mãe, esposa e dona de casa, mas nunca mais foi a mesma. E isso é constatado no registro que ela faz em seu diário: “Em quatro dias, ele deu-me uma vida inteira, um universo, e deu consistência a todo o meu ser.”

 

A experiência da dor também ensina e nos aproxima de nós mesmos. E ser nós mesmos nem sempre é continuar na mesma estrada que estávamos seguindo. Muitas vezes descobrimos que é preciso mudar de rota, desacelerar o passo, explorar outras paisagens, mergulhar no desconhecido e ousar enfrentar o que mais nos amedronta.

 

Às vezes você precisa ser quebrado para se tornar uma versão melhor de si mesmo. Às vezes você precisa sangrar e ficar à flor da pele para conseguir se resgatar por trás das máscaras e proteções, condicionamentos e projeções. Às vezes é preciso um novo você para que a vida volte a pulsar.

 

Tudo passa. O que permanece é aquilo que conseguimos ressignificar a partir da experiência do amor, da dor, da perda, do arrebatamento, do enfrentamento. E é esse novo sentido que irá nos curar e enriquecer nossa experiência de estar vivos, permanecendo para sempre conosco como um lembrete de que nossa alma foi tocada.

 

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publicado às 02:30



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