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Esquecer é muito forte ...

por John Soares, em 05.01.20

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A gente se cobra demais. Cobra a cura do amor e a capacidade de esquecer a pessoa num passe de mágica. Acontece que a gente supera, vira a página, segue o baile, enterra bem fundo aquele amor. Mas esquecer... esquecer é muito forte. Esquecer é apagar uma parte de nós mesmos e de nossa história.

 

Você já parou para imaginar como seria viver sem lembranças tristes, dores ou remorsos? Já imaginou como seria se pudesse apagar da memória todas as frustrações e todos os momentos ruins que fizeram parte do pacote completo que é a vida?

 

Pois é nessa possibilidade que se baseia o inesquecível “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, longa de 2004, ganhador do Oscar de melhor roteiro original. Jamais me canso desse filme e da mensagem que ele transmite. Na ficção, Joel e Clementine vivem um relacionamento cheio de altos e baixos. Após um término traumático, Clementine decide procurar a empresa Lacuna Inc e se submeter a um procedimento que consiste em apagar todas as memórias indesejadas dos pacientes, principalmente aquelas associadas a relacionamentos amorosos. Depois de identificadas, essas lembranças são apagadas definitivamente, deixando uma lacuna no todo. Quando descobre que Clementine se submeteu ao procedimento, Joel decide fazer o mesmo. Porém, durante o processo, Joel se arrepende, pois percebe que ao apagar os momentos dolorosos perderá também todas as boas lembranças.

 

Michel Gondry, diretor do longa, constrói uma reflexão profunda, carregada de simbolismo e poesia sobre o fim de um relacionamento amoroso. Somos convidados a rever nossas próprias experiências – boas e ruins – e refletir sobre as consequências do apagamento definitivo de tudo aquilo que fugiu ao nosso combinado, tudo aquilo que de alguma forma nos causou dor, frustração, desapontamento, desilusão.

 

Porém, mais do que isso, a história de Joel e Clementine nos ajuda a entender que a anulação do sofrimento tem como consequência a aniquilação da experiência de vida como um todo. E que, ao tentar anular definitivamente alguém de nossa lembrança, essa memória pode se tornar ainda mais aguda, e se manifestar de uma maneira não tão boa, como no ressentimento.

 

Ana Jácomo, escritora que admiro, tem uma frase que diz: “Esquecer, esquecer mesmo, é muito forte”. Concordo com ela. Esquecer é muito forte. Apagar definitivamente alguém de nossas vidas significa anular uma parte de nosso próprio eu. Insistir na aniquilação de nossa própria história é uma revolta inútil, que leva a um sofrimento ainda maior.

 

Tudo tem seu tempo, e vai chegar o momento em que a lembrança da dor deixará de doer. Será apenas um lembrete de que atravessamos, superamos, nos transformamos. E isso é muito melhor que tentar anular o que foi vivido.

 

A gente se cobra demais. Cobra a cura do amor e a capacidade de esquecer a pessoa num passe de mágica. Acontece que a gente supera, vira a página, segue o baile, enterra bem fundo aquele amor. Mas esquecer… esquecer é muito forte. Esquecer é apagar uma parte de nós mesmos e de nossa história.

 

É preciso dar um passo por vez. Não querer a cura instantânea da dor, do desapontamento, da desilusão, mas acreditar que vai passar. Não se revoltar contra o que foi vivido, mas entender que esse caminho precisava ser percorrido. Não se culpar por aquilo que não pôde controlar, mas autorizar-se agradar a si mesmo em primeiro lugar.

 

Não só o relacionamento de Clementine e Joel era repleto de altos e baixos. A vida também é assim. Intercala momentos de sofrimento e felicidade, encontro e desencontro, segurança e incerteza, conquista e perda, desfecho e recomeço. Negar o sofrimento é deixar de reconhecer a felicidade, e vice versa. Experimentar a vida aceitando a tristeza como parte da alegria nos ajuda a superar a angústia frente à imperfeição da existência e das pessoas, levando-nos a crer que não é preciso esquecer para amadurecer, e que certas revoluções na alma são necessárias pra gente se fortalecer.

 

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publicado às 02:08

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Pontos finais também são atos de amor. Partir antes do fim também é uma forma de eternizar o que foi vivido. É doloroso, mas insistir em parágrafos somente pela necessidade de chegar à última página transforma o amor bonito em ruínas. Às vezes é preciso finalizar antes da última palavra.

 

Existem os finais perfeitos e os finais necessários. E algumas vezes o ponto final acontece antes do fim.
Onde caberia uma vírgula, ponto de interrogação ou reticências, se antecipa o ponto final.

 

A folha continua, tem muitas linhas em branco até chegar ao rodapé da página, mas preenchê-la até o fim seria diminuir a intensidade do que foi escrito no início.

 

Não é preciso preencher um caderno inteiro para provar que foi bonito. Às vezes, escrever uma só linha basta.

 

Algumas histórias nascem para serem curtas, mas isso não diminui a beleza nem a importância.

 

Insistir em vírgulas quando o ponto final é a única ferramenta possível para fazer a história resistir como uma lembrança inesquecível, é tornar aquilo que poderia ser marcante em algo maçante, que se prolonga além do necessário.

 

Algumas histórias nascem para serem curtas. Como quando você faz uma viagem para um lugar diferente, lindo e distante. Você se encanta com o frio dilacerante, aplaude o pôr do sol e não se importa de escalar uma montanha para chegar ao topo. A viagem terá curta duração, você sabe, por isso cada instante é vivido com intensidade e emoção. Se, ao contrário, a viagem se torna realidade cotidiana, o prazer se dissipa. E aquilo que seria inesquecível por ter tido um ponto final, se torna apenas mais uma entre as muitas vírgulas rotineiras da sua narrativa.

 

Pontos finais também são atos de amor. Partir antes do fim também é uma forma de eternizar o que foi vivido. É doloroso, mas insistir em parágrafos somente pela necessidade de chegar à última página transforma o amor bonito em ruínas. Às vezes é preciso finalizar antes da última palavra.

 

Adoro a frase de Rupi Kaur que diz: “Eu não fui embora porque eu deixei de te amar. Eu fui embora porque quanto mais eu ficava, menos eu me amava.” Partir antes do fim é preservar a porção de dignidade que ainda resta, é poupar o amor de ser lembrado como um fardo, é restaurar o amor-próprio e dar uma chance para que o tempo transforme a dor numa cicatriz-poema, capaz de nos lembrar que viver sem se machucar é o mesmo que viver sem amar.

 

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publicado às 01:54


A batalha mais difícil ...

por John Soares, em 05.01.20

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A batalha mais difícil é entre o que você sabe na sua mente
e o que você sente no seu coração.

Exigir que um milagre aconteça, fazendo você apagar um sentimento que transborda em sua alma, ou contar com uma benção que faça você esquecer alguém, não funciona. Porque esquecer, esquecer pra valer, só acontece se a gente bater a cabeça, se a gente tiver amnésia.

 

Quando você acendeu aquela vela para seu anjo da guarda, orando em silêncio para que ele apagasse aquele sentimento do seu coração, certamente percebeu que o anjo pegou na sua mão, acalmou sua emoção… mas quando a vela se consumiu, o sentimento ainda permanecia ali, não foi?

 

Talvez você tenha percebido que a batalha mais difícil é aquela entre o que você sabe na sua mente e o que você sente no seu coração.

 

Exigir que um milagre aconteça, fazendo você apagar um sentimento que transborda em sua alma, ou contar com uma benção que faça você esquecer alguém, não funciona. Porque esquecer, esquecer pra valer, só acontece se a gente bater a cabeça, se a gente tiver amnésia.

 

Fugir também não adianta, e mesmo que você se lance numa jornada tão árdua, incrível e perigosa quanto a de Chris McCandless, o Alex Supertramp de “Na Natureza Selvagem”, nem assim você conseguirá se afastar completamente do que sente. Não há saídas mágicas, nem ônibus mágicos, que abreviem o tempo que uma lembrança irá morar em você.

 

Enquanto milhares de pessoas admiram McCandless por sua rejeição à conformidade e ao materialismo, há um outro viés que deveria ser analisado: a incapacidade do mocinho de enfrentar seus fantasmas de frente; a inabilidade de lidar com a própria família, em especial seu pai; a fuga inconsequente que ceifou sua vida; a busca imatura por uma saída mágica que o livrasse de suas angústias.

 

Na tentativa de cortar vínculos com seu passado, Chris adotou outro nome, se cercou de livros, empenhou-se em uma jornada ingênua e arriscada, tudo isso para fugir daquilo que não estava sabendo lidar. Precisou inventar uma fuga tão monumental, e usar uma armadura que transparecesse uma imagem de coragem para esconder aquilo que justamente lhe faltava: coragem!

 

Coragem de olhar para a existência tal qual ela é, e lidar com seus vazios, inconformidades, desamparos, entendendo que, mais difícil que a escalada de uma montanha monumental, é o enfrentamento de nossos Alascas diários – que não têm saídas mágicas, nem ônibus mágicos que nos protejam de nós mesmos.

 

Viver dói. Lidar com a ruptura de vínculos que desejávamos que não se rompessem, dói. Arcar com a falta de respostas, com a incapacidade de controlar tudo, dói. Aceitar a imperfeição da vida e suas impossibilidades, dói. Lidar com a falta de sentido e ausência de respostas mágicas, dói. Viver desejando esquecimentos instantâneos que nos permitam seguir em frente, calibrando aquilo que decidimos na mente, mas que ainda não sentimos no coração, não existe… e também dói.

 

Esquecer não funciona. Fugir não funciona. O que funciona é tentar alinhar o seu coração com aquilo que você já sabe na sua mente.

 

Eu sei que é difícil pra caramba, que vai doer como nunca, que vai lhe custar noites mal dormidas e travesseiros encharcados, mas se você já fez uma escolha consciente, e sabe que tem que desistir daquilo que tanto queria, você não vai mais exigir de si mesmo uma saída mágica.

 

O que você pode fazer é pegar a si mesmo pela mão e contar-se uma história, quantas vezes for necessário. Uma história cheia de detalhes que só você conhece e sente, e que, pouco a pouco, pode convencer seu coração de que ali não é o lugar dele. Conte-se essa história. Não tenha preguiça de repetir a si mesmo os motivos – que você já assimilou na sua mente – que tornam aquela escolha impossível ou fadada ao sofrimento.

 

A gente gosta de se torturar demais. E o pior é que nem se dá conta disso, acostumados que estamos em resultados rápidos, curas instantâneas e remédios milagrosos que aliviem a dor. Esquecemos que a mente tem um tempo de recuperação diferente do coração; que o aprendizado e a evolução às vezes necessitam de longos invernos da alma; e que alguns ciclos custam mais para serem encerrados do que outros. Então não se cobre tanto, e respeite sua necessidade de tentar mais um pouco se isso te trouxer paz.

 

Em vez de fugir, mergulhe. Em vez de esquecer, conte para si mesmo, quantas vezes for necessário, a história que você já entendeu na sua mente. Em vez de esperar saídas mágicas, se permita chorar. Em vez de se cobrar uma recuperação imediata, se permita sentir dor e desamparo, respeitando seu próprio tempo. Em vez de lamentar aquilo que não pode mudar, entenda que essa foi a possibilidade de você se transformar. Em vez de acreditar que perdeu, seja grato por aquilo que aprendeu…

 

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publicado às 01:34

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