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A carta da América

por John Soares, em 15.05.19

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A carta da América

 

O certo era que Maria, enquanto não passava o carteiro, arranjava sempre que fazer na rua de modo a poder vê-lo mal dobrasse a esquina, lá mais ao cimo, junto à Casa da Música, a mais de 200 metros de distância da sua casa.

Enquanto o carteiro percorria esse caminho, o que demorava entre 5 e 10 minutos, dependendo da quantidade das cartas a entregar e do tempo que as portas demoravam a ser abertas para as receber, Maria nunca mais voltava a olhar para aquele lado da rua, fingindo assim ignorar completamente a sua aproximação e, ao mesmo tempo, procurando esconder de quem passava qual a verdadeira razão da sua presença ali.

- Tia Maria, haja saúde. Hoje não há nada - disse-lhe o carteiro, na sua sempre apressada passagem.

- Ah, sô Luís, táí?! Nim sequé sabia. Bota-se uma mulhé a limpá a casa e nim sequé tã tempe de olhá pa quim passa. Ê sabia cainda nã vinha carta de mnha filha. Indé çâde. Haja saúde senhor Luís – mentiu Maria, triste.

Passaram trinta e cinco dias e não havia maneira de chegar a ansiada carta da América. Todos os dias, nas últimas semanas, Maria aproximadamente àquela hora, e por cada dia que passava antecipando ainda mais esse momento, lá ia para o lugar de sempre, disfarçando a cada instante o seu olhar para o canto da Casa da Música.

A ansiedade crescia, como crescia a dificuldade de a disfarçar de todos os que passavam na rua, incluindo do próprio carteiro, sempre pontual no seu rigoroso giro.

Nesses dias, os que excediam os habituais entre uma carta e outra, Maria regressava invariavelmente ao velho baú. Sentava-se num pequeno banco à sua frente e retirava de forma aleatória algumas cartas, cujo conteúdo conhecia de memória. Relia-as, de uma ponta à outra, sentindo-se, assim, mais próxima da nunca esquecida filha. Procurava, assim, mitigar as saudades sem fim e esquecer a preocupação constante e crescente.

- Tia Maria, hoje tã uma carta da sua filha dámérca -, disse o carteiro, de longe, mas já com ela na mão, depois de entregar uma outra à vizinha Francisca, três casas mais acima.

Foi com uma forte emoção que Maria ouviu, finalmente, aquelas tão esperadas e apaziguadoras palavras proferidas pelo senhor Luís naquele preciso momento. E nem soube como reagir, tão forte foi o sentimento que a invadiu.

- Ah, sô Luís, o senhô tá aí? Ê nim sequé tava à ispera da carta tã cede. Bote-la aí im cima da jenela, quê vou primeiro arrancá as ervas da rua antes de lalê. Obrigade. Haja saúde -, disse Maria, fingindo-se ocupada e com os olhos no chão, querendo assim a todo o custo esconder as incontroladas lágrimas de alegria sem fim que lhe escorriam no rosto, mal soube da chegada da carta da filha. E o mundo de Maria voltou, finalmente, a ficar em paz.

 

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publicado às 15:23


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