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A chegada dos portugueses no Canadá

por John Soares, em 08.11.20

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Desde a Segunda Guerra Mundial, o Canadá passou por consideráveis modificações no que se refere à composição étnica e racial da população e, hoje em dia, é um país conhecido por sua sociedade culturalmente heterogênea. Um dos grupos de imigração relativamente recente que contribuiu para essa diversidade cultural foram os portugueses. Calcula-se que existam no Canadá cerca de 550 mil portugueses e lusodescendentes, estando a grande maioria localizada na província do Ontário (Gomes, 2001). 

Com o passar dos anos, os portugueses foram construindo seu espaço no país. Prova disso é a manifestação do  Real Canadian Portuguese Historical Museum em Toronto, que pretende reconhecer a presença portuguesa na América do Norte alguns anos antes da chegada de Cristovão Colombo ao continente. Em entrevista ao jornal português Ípsilon, Suzy Soares, presidente do museu de história (RCPHM), afirmou que “sempre houve vestígios de que o navegador português João Vaz Corte-Real esteve no Canadá em 1422, dezenove anos antes da chegada de Cristovão Colombo à América do Norte”. 

Para os historiadores canadense e português, Henry Vivian Nelles (1830 - 1930) e Joaquim Veríssimo Serrão (1925), mais ou menos em 1.500 foi o ano em que Gaspar Corte-Real teria se aventurado nas terras setentrionais, cujas águas próximas já eram frequentadas por pescadores portugueses em busca de bacalhau. Os autores afirmam que, até mesmo antes disso, teriam estado na região da atual “Terra Nova”os navegadores Diogo de Teive, João Vaz Corte-Real (irmão de Gaspar) e João Fernandes Lavrador - que contribuiu com a geografia canadiana, pois a denominação da região e mar do Labrador no Canadá é em homenagem ao navegador português, que em 1498, juntamente com Pedro Barcelos, explorou aquela região (Pedra, 2017). 

Porém, há controvérsias. Alguns historiadores canadenses possuem dúvidas de que o antigo capitão-donatário tenha estado onde se localiza atualmente o Canadá antes de 1492. Entretanto, em Portugal, para a maioria dos estudiosos, João Vaz Corte-Real realmente passou pela região antes de Colombo. (Ípsilon, 2016). 

Após a chegada no país, os portugueses ocuparam as regiões rurais e tiveram de enfrentar o trabalho duro, empregando suas atividades com especial incidência na construção. Foi da mão do povo português que saíram obras como a CN Tower e o Skydome. (Gomes, 2001). 

 

 

Comércio 

 

De acordo com o historiador português Joaquim Veríssimo Serrão (1925), Mathieu da Costa, de pai português e mãe africana, foi o primeiro afrodescendente de que há registo no Canadá, em 1.600. O português Pedro da Silva foi o primeiro carteiro no Canadá, no ano de 1673. Joe Silvey, em 1853, foi um pioneiro na colonização da costa oeste do Canadá. Nas últimas décadas, os portugueses atingiram um nível de organização comunitária notável, desenvolvendo sua própria língua no país, serviços de comunicação e informação, negócios e serviços comerciais. 

Bento de São José, de 80 anos, ex-militar, desembarcou no Canadá aos 23 anos, em 17 de março de 1963, dia de St. Patrick. Ele conta que havia acabado de chegar da África de uma missão, voltou a Portugal, casou-se e saiu em busca de abrir negócios no Canadá. “ Meus irmãos já moravam aqui e sempre me incentivaram a vir. Eu já vim com a cabeça feita, pensando em abrir uma fábrica de madeira e possuir outros negócios”, explica. 

Porém, quando chegou, antes de iniciar com a vida de negócios, Bento fez de tudo um pouco. Trabalhou como instrutor de direção, trabalhou na Corte como tradutor, ajudou a construir casas e trabalhou até mesmo na agricultura. 

“Quando cheguei não havia muitos portugueses no país, não havia a comunidade portuguesa. Foi tudo mais dificultoso para manter os negócios, principalmente porque fiz tudo sozinho”, conta. 

Com força, fé e perseverança, como Bento mesmo gosta de destacar, em 1969 abriu seu negócio, a Bentos Auto Service Centre, que no início era apenas de bombas de gasolina. Com o tempo, a empresa foi crescendo, mudou para Dundas St. West e está prestes a completar 50 anos desde a sua abertura. Todos os dias, faça chuva ou faça sol, até aos fins de semana, o ex-militar faz questão de ir trabalhar. “Para mim, parar é morrer. Temos sempre que olhar para frente e avançar”, diz. 

Apesar das dificuldades que enfrentou inicialmente, Bento diz se sentir acolhido pelo país. Cheio de orgulho, enche a boca para dizer que  língua portuguesa é a quinta mais importante do mundo. “Temos que defender o nome do país que a gente veio”, enfatiza. 

Em seu local de trabalho, faz questão de fazer reuniões periódicas com membros da comunidade portuguesa para debaterem sobre novas leis, seus direitos e deveres como cidadãos canadenses e verificar se algum membro está passando por alguma dificuldade. 

Desde que chegaram ao país, a família São José fez história e ajudou a construir o espaço que hoje é denominado Little Portugal. O irmão mais velho de Bentos foi o primeiro contabilista e auditor português do Canadá. Bento foi o primeiro português a abrir as portas da política para os lusos, sendo que, na época, não tinham nem direito a votar. Concorrendo a membro do governo provincial, batendo de porta em porta, escola em escola, igreja e igreja, Bento criou o programa que facilitou a entrada dos lusos para concorrer a cargos públicos e, em 1985, os portugueses foram realmente considerados cidadãos canadenses ganhando o direito ao voto. 

 

Little Portugal é um bairro com predominância residencial, com maior grupo étnico de portugueses e maioria de lojas portuguesas, que situam-se ao longo das ruas College e Dundas, dando o nome à área. Há um bom número de casas desde meados do século XX. 

 

No ano de 1990, o ex-militar organizou uma manifestação com 13 mil pessoas no Queen’s Park para pedir ao estado canadense a aceitação dos imigrantes ilegais. Fato que, até hoje, é um problema para a comunidade portuguesa. 

“O melhor presente que o governo poderia nos dar é o presente da Páscoa. Dar amparo aos cidadãos que se encontram ilegais no país. Para os adultos, para os jovens e para as crianças”, finaliza. 

Na atualidade, há luso-canadianos espalhados em todos os ramos de atividades. Alguns até conquistaram cargos políticos, como é o caso de Ana Bailão, portuguesa que ganhou pela terceira vez como vereadora em Toronto, com 83,6% dos votos..Encontra-se, também, centenas de advogados, médicos, além de professores universitários, funcionários governamentais locais e funcionários de repartições públicas. Quanto às atividades econômicas, o número de profissionais portugueses ainda é pequeno. A grande maioria dos portugueses trabalha na construção, no ramo de hotelaria, manufatura e em cargos públicos. (Gomes, 2001).

 

 

Portugal Day 

 

Neste ano de 2019, no mês de junho, comemora-se no Canadá, na Little Portugal, a 32ª Portugal Day Parade. Todos os anos, membros da comunidade portuguesa vão às ruas com bandeiras e roupas típicas para homenagear seu país de origem. Na última edição do evento, Julie Dzerowicz,  Liberal do MPD, afirmou que pela primeira vez a nível nacional, o Canadá dedicou o mês de junho como o mês da Herança Portuguesa e o 10 de Junho como o Dia de Portugal. 

Este evento, sem dúvida, mostra que a união lusitana é algo para se orgulhar, pois, os mais de meio milhão de portugueses, seja por nascimento, seja por descendência, todos os dias, ajudam a construir novas histórias, sem deixar suas origens. A nação canadense é diversificada e o povo português só tem agregado nessa enorme colcha de retalhos linguística e cultural que é o Canadá. 

 

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publicado às 17:52



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