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Avós e netos

por John Soares, em 27.05.19

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Avós e netos
... Versão de S. Miguel, Açores ...

 

 

- Nhamã, os mês amigues todes tã no Calhá dÁreia. Eles sabim todes tomá banhe menes ê, prequê nunca vou tomá banhe cma ieles. Ê possi pra lá?- perguntou Armando, de 12 anos de idade.

 

- Já sabes que nã podes. Tans qui lavá o isqueire dos porques. Tê pá logue qué vê-le bam limpe e escabelade. E tans qui à terra buscá uma saca de bogangues pós marrinzins comerim e erva pás galinhas, quélas tã sim nada pa comê.

 

- Eh, nhamã, assam ê nunca vou aprendê a tomá banhe. I buscá bogangues e vi fica de nouche.

 

- Amanha-te como quisés. Primeire é o qué precise e tomá banhe nã é precise pra nada. E os homes forim fêtes pa andarim im terra. Os pêxes é que precisim de sabê tomá banhe.

 

Era assim com Maria. Não havia cedências. Sempre fora assim tratada, quando menina. E assim entendia dever ser com os seus três filhos - Armando, Antero e Ana.

 

Para ela, a pior herança que poderia deixar aos filhos era a ilusão de que a vida é fácil. Sem uma plena dedicação ao trabalho, sem a mínima cedência a desvios inúteis, jamais se alcançaria um futuro satisfatório. Qualquer perda de tempo fora do trabalho era afastada sem hesitação.

 

Preparar os filhos para vida não poderia ser uma mera brincadeira, sujeita a caprichos vazios e a cómodas e irresponsáveis cedências ou ziguezagues titubiantes. Sempre cortou a direito, e nunca cedeu um milímetro sequer no seu entendimento sobre como se deveria educar.

 

Como ela própria sempre soube, e melhor que ninguém, nem sempre esse caminho lhe granjeou a aprovação e a simpatia dos filhos. Bem pelo contrário. Não raramente percebia neles expressões de desagrado com o rigor que lhes impunha cada dia que passava. Mas era para o lado onde dormia melhor.

 

-Pa nhamã é só trabalhá, trabalhá!

 

- Aqui quim manda sou ê. Quande vacês se casarim ou sairim de casa, intã fassim o que quiserim. Enquante aqui tiverim é assam.

 

- Nhamã nunca dêxá gente fazêrim nada. Mêvó e nhavó dêxim a gente fazêrim tude – assegurou Antero, de 6 anos de idade.

 

- Pousé, tê vô deixa-te fazê tude. Ê sê. Até parece que tê vô é um sintinhe. Mas êsse tê vô, quandê tinhá tua idade, nã me dexava fazê nada. Nim sequé i brincá pá rua despous das Trindades. Nim sequé andá na rua sozinha. Nim sequé i às Domingas. Têvó agora até parece outro home. Mas dantes nã dexava os filhes fazêrim nada. Erum demóne – disse Maria, furiosa.

 

É quase sempre assim.Há muito tempo. As crianças sentem geralmente uma enorme atracção pelos avós e estes pelos os netos. Derretem-se uns pelos outros.

 

Que têm os avós de especial para que, quase unanimemente, se lhes reconheça uma competência de trato com as crianças que os pais desconhecem? São permissivos. São afectuosos. São tolerantes. Estão sempre disponíveis para os netos.

 

Mas a razão maior talvez seja estarem carregados de remorsos sobre como, enquanto pais, agiram com os filhos – sem a paciência e a bondade que, quando já avós, consideram ter-lhes faltado nesse tempo.

 

- Quande os mês filhes tinhim a idade cos mês netes tam agora ê nã tinha tempo nim paciença pa brincá coeles. Agora, cos mês netes é defrente. Tá coeles é a cousa más importante da vida -, disse Joaquim com um rasgado sorriso no rosto .

 

- Eh home, mas o quié que te dê pa ficás assam? Falas dos netes todódia. Qués é que chegue o dia de tás coeles. Tás sempre jogande à bola coeles. Quandêles nã tã contigue, tás sempre mostrande os retrates deles. Já ningam te pode sofrê a falá dos tês netes –disse António, amigo de sempre de Joaquim e também ele reformado.

 

- Vás vê quande chegá à tua vez. Tá quaise.

 

Era motivo de conversa recorrente a mudança de Joaquim no trato das crianças. “Quim lo vi e quim o vei agora”, dizia Leonor à irmã Glória.

 

- Cá pra mim, os avós e os netes dã-se assam tã bem por serim muito parecides uns ós outres– disse Leonor à irmã, ambas já avós, enquanto bebiam o seu habitual chá da tarde.

 

-Parecides? Tás cma tola, ó quié? Os netes acabarim de chegá ó munde e os avós tã cansades de tárim aqui. Os petchenes tã ainda tude pá aprendê e burre velhe já nã aprende linguage. As crianças nã párim quietes in lade ninum e nim sequé uma nica e os velhes só quérim é sossegue e bebê chá. Isse é serim parecides?- discordou Glória.

 

- Eh mulhé, sã parecides, sã. Pensa lá bam. Essas defrenças sã só a fingi. Nã sã tã defrentes assam cmtu pensas. Uns e outres sabim co quimporta même é tarim juntes e coas pessoas que gostim. Uns e outres sabim co quimporta é aquela hora im que tã juntes.Os netes gostim de tá cos avós e os avós gostim de tá cos netes. E assam fiquim todes felizes e nã pensim noutras cousas.

 

- E os pais e os filhes nã gostim de tájuntes?

 

- Gostim. Mas ó même tempe os pais tã sempre pensande nã é no que tã fazende cos filhes naquela hora, mas no future deles. E isse istraga tude.Tã sempre vende defêtes nos filhes e garriande coeles por causa disse.

 

Já os avós e netes, nã. Querim é tá contentes naquela hora, nã é despous. Querim lá sabê do future pálguma cousa. Nim sequé sabim se vã chegá lá!

Por : Roberto Pereira Rodrigues

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publicado às 17:07


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