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O golinho de leite ...

por John Soares, em 14.06.19

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... O golinho de leite ... 
... Versão de S. Miguel, Açores ...

 

- O mê rapá vá pá iscola pá semana, pá 1.ª classe. Quandê vi o sopressor onte no adre da Igreja e disse a iâle: sôpressor, é dá-le pela cabâça a baixe. Ca cabeça é que governa o corpe. Quandâle precisá é dá-le a pincadaria que fô precise. E quande ele chegá a casa ainda leva más - disse José a Mariano, sentados no Canto do Hospital ao fim da tarde de Domingo.
- Ê home, o tê rapá é ainda um petchene. Achas câle pecisa de levá porrada na iscola?
- Intã nã precisa?! Todes precisim. Cmué que qués que se deia o insine? Sâles nã levarim im pequinines nunca vã dá homes cme devedesâ.
Nessa altura, a receita sobre como educar as crianças era mais ou menos assim – à cautela e na dúvida, o melhor era usar a pancadaria como instrumento certo para todos os problemas. Batia-se ou ameaçava-se bater nas crianças por tudo e por nada. A torto e a direito, com mais ou menos violência. Assim se garantia o “respête”, um valor absoluto num tempo em que o dever de obediência surgia, talvez, como o mais importante. Obedecer às ordens era um valor em si mesmo, fossem quais fossem essas ordens.
André fora educado assim, tal como todos os outros rapazes da sua idade. Nada a fazer. Era o caminho certo para tratar de quase tudo o que à educação dissesse respeito, não causando censura de maior se o pai, o professor, o padre ou até mesmo um adulto batesse numa criança pelas razões mais diversas e por vezes mesmo fúteis. Especialmente se violado o dever de respeito, sendo a desobediência considerada uma das formas mais graves de desrespeito.
Já rapaz feito, André acompanhava o pai diariamente à terra, ali para os lados dos Atalhos, para o ajudar a ordenhar e a apascentar duas cabras e a transportar o leite às costas para a casa. Usado para fazer queijos, leite coalhado, sopas de leite e para vender o que sobrasse às vizinhas mais chegadas.
Mas no caminho para casa de ambos, que sucedia todos os dias sempre ao fim da tarde, encontravam sentado no canto de cima da rua de Santa Catarina o senhor António, considerado ancião que, com um rasgado sorriso no rosto dizia ao tio José, pai de André:
- Ê Jedé, dexa-me prová o letche das tuas cabras. Dizem cos tês queijes sã os melhós da Maia.
- Ê senhô Antóne, ê nã sê so letche é o melhó, mas o queije é bum. 
E acrescentava:
- André, dá a lata do letche ó Sô Antóne pra iâle prová o letchinhe das nossas cabrinhas.
André, como não poderia deixar de ser, obedecendo ao pai, deteve-se na sua caminhada, tirou das costas a lata de leite, colocando-a no chão, tirou-lhe a tampa e entregou-a ao senhor António que, com um farto sorriso, a aguardava impaciente.

Levada a lata à boca, o senhor António, que pedira apenas para provar o leite das cabras para atestar se era tão bom como se dizia, não havia maneira de a baixar. Era uma prova bem demorada, traduzida numa interminável sucessão de goles, reduzindo o nível do leite da lata bem abaixo do que se poderia imaginar. 
Ambos, pai e filho, entreolhavam-se, bem sabendo que aquela sucessão sem fim de goladas causaria uma óbvia perturbação no equilíbrio precário da economia familiar – menos queijos e menos leite para vender.
No dia seguinte, lá estava novamente o senhor António, repetindo o rasgado sorriso, assegurando que o leite era mesmo bom, mas, ainda assim, pedindo mais “um golinho”:
- Ó Jedé, é verdade. O letche das tuas cabrinhas é um bele letche. É mâme de veras o que dizim. Dexa-me prová más um bocadim. Ê goste de bebâ um bocadim de letche todes os dias antes da ceia. Dâ-me pra iste, qui é que tu qués?!
E o tio José e o filho André, respeitosos com o senhor António, lá repetiram o procedimento, ainda que um pouco incomodados e receosos e sempre com os olhos postos no interminável “bocadim” de leite que o senhor António quis voltar a experimentar, com as consequências conhecidas.
No dia seguinte, ao contrário do que era costume, André descia o caminho com a lata de leite de cabra às costas bem à frente do pai, o que causou alguma hesitação no reputado senhor António que, como sempre, os aguardava no Canto.
Esboçou um gesto em direcção de André que, fingindo não reparar nele, seguiu em frente a passo firme. O senhor António, meio confuso, disse ao tio José ainda um pouco lá atrás:
- Ê home, o tê rapá vá sempre pá frente. Manda-le vi pa trás.
- Oh André, andáqui. O Sô Antóne qué dá um golim no letche das nossas cabrinhas, cmó costume.
- Ê me pá, ê nã vou...
- Ê rapá, andáqui, quê tou-te mandande. Ê sou tê pá.
- Ê mê pá, ê nã vou.
- Sabe, Sô Antóne. O mê André é um petchene muntche obediente, mas quande âle diz que nã, é mâme nã! Nã há nada a fazâ!

 

Por : Roberto Pereira Rodrigues

 

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publicado às 14:41


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