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Reino de Preste João

por John Soares, em 24.04.19
 

Reino de Preste João

 

A Lenda de Preste João, com todas as suas variantes, povoou a mente de uma boa fatia da Europa, sobretudo a parte ocidental do continente – mas foi em Portugal que a sua demanda ganhou um prestígio determinante, moldando a história de um país pequeno, apertado entre Espanha e o mar.

O vago Reino de Preste João

Não é tarefa fácil falar sobre uma das mais enigmáticas e labirínticas lendas da Europa medieval.
A ideia de existir um reino cristão perdido nos confins do Oriente, para lá dos territórios dominados pelo Islão, é antiga e custosa de situar no tempo. Marinava numa crença de que havia alguém, do lado oposto do Velho Continente, a bater-se contra os muçulmanos, numa altura em que estes já se intrometiam pelo Sudeste europeu e pela Península Ibérica, ao mesmo tempo que as Cruzadas enviavam exércitos de Cristo para a frente de batalha.
Dada a frustração de alguns dos avanços cristãos sobre terras islâmicas, parecia haver um certo wishful thinking nesta fé num aliado para os lados do sol nascente.
Não podemos pôr de parte, também, a hipótese de tal reinado não ser propriamente cristão mas sim de outro credo que não muçulmano. A questão é que, à época, e aos olhos de um ocidental, quase tudo o que não era islâmico, seria certamente cristão, e quase tudo o que não era cristão, seria certamente islâmico – dada a falta de comunicação entre Oriente e Ocidente, pouco se conhecia além do binário cristianismo-islamismo (excluindo o milenar judaísmo). Ou seja, qualquer rumor que surgisse nas cortes do Ocidente que bradasse sobre determinado exército que afrontava os seguidores de Maomé levaria a uma só conclusão: que os ditos guerreiros só poderiam ser seguidores de Jesus.
Existisse ou não, o que importa referir é que, na imaginação europeia, esse reino era liderado por um tal de Preste (ou Padre) João, homem magnânimo para com quem lhe era leal e dono de um paraíso na Terra, carregado de ouro e de palácios faustosos, onde marchavam criaturas mitológicas como sagitários e sátiros e faunos e gigantes, e onde o mal não cabia – havia até quem lhe atribuísse o Jardim do Éden ou sítio em tudo parecido.

Preste João no Oriente

O que sabemos é que, no século XII, um avolumar do culto se deu quando o bispo Oto Babenberger, aquando da perda de Edessa, apresentou ao Papa Eugénio III uma velha história (ao que tudo indica, forjada) de um reinado cristão nestoriano que se batia contra as hostes muçulmanas em território persa.
Oto Babenberger falsificou igualmente uma carta destinada ao seu tio, Frederico I Barba-Ruiva que garantia que não só Preste João teve sucesso em defender o que era seu, como aliás avançava até domínios árabes, com vastos exércitos protegidos pelo sinal da cruz. A carta foi lida e traduzida em várias línguas. Os rumores estavam então confirmados oficialmente por texto escrito – e pouco importava que as escrituras tenham sido inventadas.
 
 
Preste João, Rei dos Reis, Senhor do Oriente Cristão
 
 
Ao mito do paraíso que governava, outros mitos se formaram sobre o próprio Preste João: o mais famoso defendia a sua era eterna jovialidade por se banhar na Fonte da Juventude, isto apesar de contar já com mais de cinco centenas de anos, mas outros não se ficavam por menos, havendo um que remetia a genética de Preste João aos Reis Magos bíblicos.
Frederico I viu assim o seu poder aumentar face à esfera de influência papal – afinal, era ele o destinatário da carta de Preste João, e quem precisava do Papa, tantas vezes derrotado, quando se tem um aliado vencedor como Preste João do Oriente, ainda por cima tendo ele ascendência tão nobre quanto a dos Reis Magos descritos por São Mateus?
A certeza (ou quase certeza) de que o Reino de Preste João se situava algures no Oriente – aparte da Pérsia, alguns deslocavam-no para a Índia ou Mongólia – foi duradoura.
Perdurou, pelo menos, até à altura em que o errante Marco Polo narrou acerca de uma tribo que pagava um tributo a um homem que era uma espécie de Rei dos Reinos. Esse homem era, segundo Polo, Preste João. No mesmo livro em que contou isto, acrescentou que esse povo (os Tártaros) se rebelaram contra Preste João numa batalha sanguinária, vencendo-o e matando-o. Caíam assim pelo chão duas das grandes virtudes de Preste João – a de gerir um reino tão harmonioso que não gerava revoltas contra ele, e a da sua invencibilidade.
Mas este não era o fim do mito. Mantinha-se uma certa esperança por um monarca cristão que lutava com a Europa contra o seu inimigo comum. A pressão islâmica mantinha-se (sobretudo na Península Ibérica) e convinha à moral guerreira da Europa a crença, mesmo que hipotética, num aliado invicto. E assim, morrendo o Preste João da Ásia segundo a pena de Marco Polo, nascia o Preste João da África, empurrado para as terras sobre as quais pouco se conhecia e mais azo davam à imaginação: no caso, além Egipto – a Etiópia.

A visão lusa de Preste João

E eis que, enfim, chegamos a Portugal e à sua interpretação da Lenda de Preste João.
A demanda por este Reino de todos os Reinos, ou Rei dos Reis, foi processada no inconsciente português como em nenhum outro país. Assim que se selaram as fronteiras portuguesas no continente, delimitando-nos do território a que actualmente chamamos Espanha, todos os olhos se viraram para o nosso outro vizinho com quem mantivemos (e mantemos) uma relação longa e longeva – o Atlântico.
Uma das primeiras metas definidas pelos grandes engenheiros da expansão portuguesa foi exactamente a descoberta de Preste João – a começar pelo Infante Dom Henrique. Como antes, afirmava-se que, encontrando o Presbítero, mais facilmente se poderia esmagar o poderio muçulmano, tanto pela força física como pelo bloqueio de rotas comerciais, nomeadamente no Mediterrâneo e no Mar Vermelho. Em Portugal juntavam-se outros defensores argumentando que a chave do caminho marítimo para a Índia estava escondida no Reino de Preste João.
Foram várias as incursões lusas pelas Índias e pelo Continente Africano à procura do seu reino perdido, a maioria delas patrocinadas por monarcas. Mas salienta-se uma, encomendada por D. João II: a de Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã (este último vê a sua importância sublinhada num dos mais famosos monumentos às Descobertas, o Padrão dos Descobrimentos, sendo uma das esculturas que se encontra no lado Oeste). Ambos foram destacados para averiguar acerca do Presbítero. Por má sorte, apenas Pêro da Covilhã conseguiu terminar tal tarefa, já que Afonso de Paiva morreu em missão.
Pêro da Covilhã, depois de longa caminhada por terra, que mais parecia uma epopeia, achou alguém cujas características encaixavam em algumas das versadas acerca de Preste João: um imperador, empurrado pelo avanço islâmico para o interior da Etiópia, que era cristão – apesar de não nestoriano.
As semelhanças acabavam aí. A imagem de hegemonia militar que toda a Europa criou acerca do seu reino, aliada ao idealismo com que João reinava e à sua riqueza e abundância infinita estavam longe da realidade vista pelo olhos de Pêro da Covilhã. Tratava-se, ao invés, de um território paupérrimo a nível económico e fraco militarmente. Ironicamente, se os portugueses vieram até à Etiópia à procura de auxílio para derrotar o inimigo mouro, acabaram por ter de ser eles a vir em socorro do imperador etíope, que sozinho não conseguia bloquear a avassaladora onda islâmica.
O explorador português, de resto, nunca mais saiu da Etiópia – um eventual regresso a Portugal era arriscado dada a sua bem possível ascendência judia quando o país dava os seus primeiros passos na perseguição aos judeus. Manteve, contudo, contacto com a sua pátria até ao final dos seus dias.

O significado por trás do Reino de Preste João

Escusado será dizer que a Lenda de Preste João dá pano para mangas.
Em Portugal, por exemplo, este reinado único, de confluência, que procura um rei solidário, o rei de todos os reis, confunde-se com a noção do Quinto Império português e com a tradição solidária das Festas do Espírito Santo – isto para não falar do facto de que toda a crença num regresso de D. Sebastião encontra eco na demanda por um Rei perdido em África. É nesse utópico reino que se imagina uma gestão justa dos recursos, onde a fome e a pobreza não existem, à imagem do que Cristo defendia. E assim se justificava a missão civilizadora do Portugal cristão, como expansionista dessa fé.
É também comum, num contexto europeu mas segundo uma visão bem lusitana, vermos o paradisíaco Reino do Preste João como uma metáfora do reencontro do Velho Continente consigo próprio. Seria isto ainda mais verdade se tivermos em conta o buraco espiritual em que a Europa se afundou depois de extinta e perseguida a Ordem dos Templários – por cá, felizmente, substituída pela Ordem de Cristo. São conhecidas várias lendas, algumas arturianas, que nos contam episódios sobre a partida do Santo Graal para o Oriente longínquo.  O Santo Graal que se fala é precisamente o arquétipo místico perdido de uma Europa à procura do seu centro. E conseguimos estabelecer um outro paralelismo entre o Graal e o Preste João – no fundo, a busca incessante pelo nosso mais profundo significado, e concluindo, uma espécie de salvação da alma ocidental.
Lima de Freitas, autor de várias páginas debruçadas sobre este assunto, aponta que, se por um lado foi ingénuo dos portugueses entenderem que o Reino do Preste João era um reino literal (isto é, que ele existia em matéria, com terra e povo e rei), por outro a constante demanda executada por diversos navegadores e exploradores por um lugar inexistente no mapa acaba por revelar essa iniciação necessária ao encontro do Eu, a chegada àquilo que o pintor considerava o “Centro da Tradição primordial”. 
 

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publicado às 23:24



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