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Tarde demais ...

por John Soares, em 14.06.19

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... Tarde demais ...
... Versão de S. Miguel, Açores ...

Foi sempre assim. E foi assim com quase todos. Escapam os loucos e as crianças, os únicos que talvez saibam a verdade: que o tempo é irrepetível e que, se perdida uma oportunidade, ela jamais será recuperada e ficará perdida para sempre. O dia de amanhã, apesar de também ter 24 horas e de, em tudo, se parecer ao de hoje, não permitirá substituir nunca aquilo que, por uma qualquer razão, quase sempre fútil, não fizermos e se impunha fazer hoje. Jamais recuperaremos esse tempo.
Os loucos e as crianças ignoram por completo o tão arreigadamente defendido sentido de oportunidade ou da conveniência. Eles sabem como ninguém que o momento em que estão é que conta. Não o que há-de vir, se realmente algum dia vier.
Os adultos, os sensatos, os ponderados, os cautelosos, os indecisos, e tudo isso que quer dizer o mesmo, em geral constroem a vida baseados num engano que a destruirá para sempre: agem convencidos de que a vida é eterna. Fingem acreditar que o tempo durará para sempre, apesar de todos os dias serem confrontados com inúmeros casos de pessoas para quem o tempo deixou de existir ou, continuando a existir, é como se já não existisse, tão miserável é a vida que levam. 
Cada segundo de vida em que se não faz o que precisa ser feito, tal como o deseja uma criança, que sabe como ninguém a urgência das coisas, como a de brincar com o pai e com a mãe naquele preciso momento, obtendo sem piedade como resposta que tal não é possível por terem todos de ir dormir por no dia seguinte ser dia de trabalho e de escola, ou por uma qualquer outra razão igualmente fútil para as crianças. 
Assim também são os loucos: não valorizam minimamente o sentido de conveniência ou de de oportunidade, tão conhecidos e assimilados por todos nós, os lúcidos, os sensatos, os ponderados os ajuizados. Para os loucos o futuro e o passado não existem. Apenas conta o presente.
Mas alguns, os mais lúcidos e, por isso mesmo, os mais infelizes, talvez um dia e demasiado tarde perceberão que as suas vidas, tal como as dos demais, foram feitas num enormíssimo equívoco, que se traduziu num logro do qual, agora e no pouco tempo que lhes resta, já não irão a tempo de fugir.
- Ê nã sê cmué quê vivi toda vida cmacégue.
- Prequié que tás dezende issagora?
- Prequié? Tou quaise com 80 ânes, tome todes dias 7 compremides, péne pa me levantá da cama e pa andá um bocadim. Penê pa chega aqui à Trinchera pa falá um bocadim com quim cá tivé. 
- E depous? Tás melhó que muntches que nim sequé se conseguim alevantá e outros, a maió parte dos da nossidadade, já morrârim. Nã te quêxes.
- Quêxe-me. Mas só me quêxe de mim mâme. Só agora, ós 80 ânes, quandê já não posse fazâ nada e quande ningã me quê pra nada é quê percebi quê istraguê a minha vida.
- Ó home, nã digas isse. Tomárim todes târim uma vida cmá tua.
- Tás inganade. Quim tã ou quim tâve uma vida boa fou quim fâz na altura certa o que tinha que fazâ. Cmuma criança brinca quande qué brincá e cmum tolim canta, e chora, e gritcha quande qué, sim tâ mâde que fique bã ou mal.
- Ó home, dizes cada cousa.
- Pous digue. O pió é que só agora é quê percebi isse. Já nã me serve de nada. Agora tomara ê consegui levantá-me da cama sózim. Já é só pra ísse que serve o quê aprendi agora e o quê ispere da vida.

 

Por : Roberto Pereira Rodrigues

 

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publicado às 12:17


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